08/11/2015

ÁGUAS DE MARÇO


As águas de março fechando o verão nunca foram tão esperadas como nesse ano de 2015. As escassas chuvas dos últimos meses reduziram drasticamente os reservatórios e assolavam os lares do sudeste brasileiro, prejudicando as atividades do cotidiano.

Banhos curtos, acúmulo de roupa para a lavagem, pilhas de pratos sujos na pia. Visitar alguém sem avisar? Mais do que nunca se tornava inadequado.

Grupos rezavam para chover. Outros, como os antigos indígenas, cantavam e dançavam para que os deuses da chuva realizassem o seu pedido.

Carros-pipa forneciam água potável nos bairros mais distantes. Nem sempre suficientes para suprirem a demanda.

Com a escassez de água, a energia elétrica também começou a enfraquecer, intensificando o desconforto do dia a dia e gerando prejuízo na conservação de alimentos. Frangos mortos sem refrigeração, gado sem pasto, pescadores sem peixe. Algumas plantações sucumbiram. E as represas onde havia água em abundância transformaram-se em árida desolação.

Por vezes até podemos viver na chatice de não ter luz, nem Internet ou televisão... Mas como sobreviver sem água?

O jeito foi nos unirmos na economia, embora algumas pessoas insistissem em lavar a calçada com mangueira. E sequer se encabulavam quando pegos em fragrante pelas reportagens televisivas.A maioria da população, porém, aceitou o desafio de fazer a sua parte. E o governo? Aumento na conta de água para inibir o consumo, projetos de saneamento, promessas de melhorias na manutenção, reparos mais rápidos nos vazamentos. Campanhas para economizar água reforçaram a necessidade de se respeitar a natureza.

No fundo, todos torciam para que as águas de março chegassem depressa. Talvez por esse motivo ou pelo premiado espetáculo “Elis, a Musical”, a canção de Tom Jobim tocava cada vez mais nas rádios.

Naquela tarde quente, após dez dias de secura, os primeiros pingos refrescavam a esperança. A animação era geral. Nuvens escuras prenunciavam que a chuva seria intensa. De certo alguns transtornos já eram esperados, como semáforos apagados e a piora no congestionamento no trânsito. Mas o que ocorreu foi simplesmente um caos: enchentes em pontos nunca antes alagados, queda de inúmeras árvores, desmoronamento de terra.

A potência da água invadia terraços, salas, quartos e cozinhas em uma velocidade estonteante. O pouco que pessoas humildes conseguiram adquirir... Tudo perdido em poucos segundos.

Lembro-me de assistir no noticiário o depoimento de famílias inconsoladas. Não havia forças nem condições para limpar e resgatar seus pertences. As torneiras continuavam vazias enquanto moveis, alimentos e utensílios boiavam na imensa piscina domiciliar que se formou.

Naquele momento, não mais prevalecia o ritmo contagiante de Tom Jobim, mas a melancolia de uma música de Djavan.

Dava para perceber que o coração dessas pessoas preenchia-se de tristeza, esvaziando a esperança.

Indignação, instabilidade, descrença...

Quanto a mim, só restava me compadecer do sofrimento de quem, tal qual nos versos djavanianos, começava a descobrir a angústia e a impotente sensação de “morrer de sede em frente ao mar”.

Márcia Etelli Coelho
Primeiro Lugar no concurso de crônicas da
VIII Jornada Nacional de Médicos Escritores - Sobrames
Tubarão-SC - 15 a 18.10.2015

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