30/11/2019

BOA NOITE, MEU AMOR



Por: Mélida Francisca Velasco Cassanello

Boa noite, meu amor.
Eu vou embora
É noite de lua cheia.
É tarde, eu vou embora
É noite de lua cheia.

Boa noite, meu amor...
Mas, beija-me
Assim se despertam meus desejos.
É noite ainda.
Eu não quero ir embora.
É noite ainda.
Desejo ficar em teu peito,
Onde vagam meus desejos.

Boa noite, meu amor.
A estrela brilha.
É noite ainda.
Quero ficar em teu peito.
Assim nosso amor brilha.
É noite ainda.
Quero ficar em teu peito.

Boa noite, meu amor.
Dormiremos entre beijos.
Treme teu corpo, treme tua alma.
É noite ainda.
Deixa-me dormir delirando.

Boa noite, meu amor.
Não vou mais embora.
______________ 


MINHA PRIMEIRA VISÃO DE MUNDO


por:  Juarez Moraes de Avelar

Quando nasci, a humanidade já sofria há três anos as terríveis atrocidades da II Guerra Mundial, período dos mais sangrentos de sua história. Naquela época, os meios de comunicação eram rudimentares, precários e lentos. Quando a notícia de um episódio sangrento chegava até o povo, outros de maior gravidade já haviam acontecido. Com efeito, as informações de que se dispunha nunca refletiam a situação do momento.

Contudo, a notícia do fim da Guerra, em agosto de 1945, com a assinatura da rendição japonesa aos americanos, foi recebida por todos com alívio. Portanto, três anos após minha chegada ao mundo, o anúncio do fim das hostilidades bélicas repercutiu rapida-mente em todos os cantos do país.

Quando me esforço para acessar informações sobre minha vida precoce, deparo-me com alguns episódios marcantes. A II Guerra Mundial é um deles com as páginas de tristeza e sofrimento. Entretanto, o primeiro registro armazenado em minha memória é a maravilhosa imagem de minha mãe grávida, com o meu irmão caçula, Jozimar, em seu volumoso ventre, quando eu ainda tinha três anos de idade. Minha saudosa mãe era dotada de boa estatura física, pele clara, olhos castanhos, cabelos não muito longos, que alcançavam os ombros; trajava vestes alvas, longas, abaixo dos joelhos, em que sobressaía o abdome proeminente. Em minha visão infantil, ela apenas parecia mais “gorda” que as demais pessoas. 

Contudo, certo dia, para surpresa minha e de meus irmãos, ela entrou em casa sem a aparência opulenta. Nos braços, trazia um bebê envolvido em uma coberta branca com detalhes azuis. Poucos dias antes daquele memorável episódio, eu havia completado quatro anos, e me lembro de nossa alegria com o nascimento do quinto filho de meus pais. Assim, em nossa família, éramos sete: papai, mamãe e nós, cinco irmãos.

Ainda cedo foi embalada por sonhos de futuro. Cada um de nós sempre demonstrou desejo de estudar e concluir cursos uni-versitários. Para meus pais, tais desejos ensejavam elucidativas conversas sobre atividades como Engenharia, Medicina, Direito, Pedagogia, Economia, Veterinária e Agronomia, que eram as profissões disponíveis aos jovens interessados na universidade. Essas profissões eram temas de debate, e nós, crianças, anunciávamos que escolheríamos esta ou aquela faculdade. No meu caso, ainda precocemente, cada vez mais se acentuava o desejo de tornar-me médico.

Enquanto meus irmãos mais velhos frequentavam o grupo escolar, eu, em razão da pouca idade, ficava em casa em companhia de mamãe, no desempenho das obrigações domésticas. Assim, desde minha infância já me identifiquei com o trabalho, razão pela qual sempre envidei esforços para realizar as tarefas com dedicação e empenho. Essa convivência com mamãe despertou em mim a curiosidade pela fita métrica, instrumento valioso para o trabalho exercido por meus pais. 

Inicialmente aprendi a ler os números da fita; em seguida, memorizei sua sequência, e depois aprendi a dobrá-la para obter a soma de suas metades e entender o significado da multiplicação. O mesmo ocorreu com as operações de divisão e subtração. Coisas elementares, mas para um garoto de cinco anos, fora do ambiente escolar, tais descobertas eram semelhantes à mágica. Minha curiosidade e o desejo de ajudar mamãe levaram-me a tentar algumas anotações, sendo alfabetizado por ela. Que alegria rememorar aqueles momentos de aprendizado, de descobertas tão importantes em minha vida!

Meu vínculo formal com a escola começou aos oito anos de idade e, graças às aulas de minha mãe, pude ingressar no segundo ano do curso primário (hoje chamado Ensino Fundamental). Com alegria, em companhia de Jomázio e Maria Helena, que carinhosamente chamava de Ena, apelido que se mantém até hoje, punha-me a caminho do grupo escolar. Durante o curto trajeto invadia-me um turbilhão de sentimentos, uma incrível sensação de felicidade, ao constatar que frequentar a escola era o passaporte que me levaria, um dia, a cursar uma Faculdade de Medicina, desde que me empenhasse para isso.

Como foi bom ser embalado por sonhos! O caloroso ambiente familiar era orquestrado por meus pais, que não mediam esforços para alimentar nossos sonhos infantis. Eles nos fizeram entender que para alcançar nossos projetos de vida era necessária dedicação aos estudos. Assim, fomos orientados a encontrar nas salas de aula e nos livros as respostas para nossas inquietudes na busca de conhecimento. No meu caso em especial, percebi que estudar com afinco era etapa indispensável para realizar o sonho de ser médico. 

Felizmente, após mais de seis décadas, posso constatar que meus objetivos foram alcançados. Melhor ainda é vivenciar a concretização de sonhos trans-formados em realidade pelo meu trabalho, um veículo para levar uma mensagem de fé a meus semelhantes que necessitam de meus conhe-cimentos, habilidade manual e arte para realizar a transformação física e psicológica de que necessitam.
_____________________

28/11/2019

PESADELO


Por: Maria Gertrudes Vagliengo Focássio 

Espontaneamente penetra em meus sonhos, com certa frequência, o Heliópolis, Hospital onde iniciei a minha carreira como médica. Mas. O edifício é outro bem diferente, dentro do qual me perco, tomo o elevador errado, sigo pelo corredor oposto ao que me levaria à saída mais propícia.

Caso me abordem, desconheço a orientação espacial para conseguir informar; se os residentes me solicitam discutir um caso, olho para o paciente, trêmula, em intensa sudorese, gaguejo sem lembrar-se de nada a respeito daquele doente da minha enfermaria.

Consigo finalmente repelir esse sonho que me deixa extenuada e, imediatamente, uma porta imensa se abre, empurrada por uma bruxa enorme, pavorosa. Que me persegue. Em seu bolso está um mega crachá escrito: “Receita Federal”.

Corro apavorada, porém ela lança uma rede e me aprisiona, dizendo com sua voz medonha: “Você está literalmente na malha fina. Vai ser multada”.
            
Quero assumir que vou pagar, porém minha voz é inaudível…

Preciso empurrar esse pesadelo para longe, todavia estou presa na malha fina e não consigo fazê-lo, nem fugir.
            
Outro pesadelo entra voando pela janela, na forma de um terrível gavião das montanhas e me livra daquela rede com seu bico dilacerador.
            
Porém não consigo me recuperar do susto do sonho anterior, ao ler o enorme crachá frouxamente pendurado ao pescoço do gavião mal encarado: “CET”. Mas ele se apresenta pomposamente: DETRAN para os íntimos, como você.
            
— Eu já estava de saída, balbucio, ofegante.
            
— Não! Não pode me evitar! Veja quantas multas! Noventa pontos na carteira. Vão perder a CNH.
            
E minha cabeça fervendo queria oferecer propina, contudo o medo é tanto que me retiro do sonho, trôpega cruzo a praça e estanco antes de atravessar outra rua. Um carro forte freia ruidosamente diante de mim e dele saltam dívidas que me rodeiam e se aproximam ameaçadoras.
            
— OK, Vou parcelar no cartão.
            
Saio correndo com a tocha olímpica e botas de sete léguas, adentro o mar, vou nadando com os golfinhos, voando com as gaivotas, até colidir com um foguete identificado com a inscrição “NASA”.
             
Por favor, implorei, leve-me até um sonho mais “light, cor de rosa e musicado”.
            
O foguete me deixa diante de uma vala cheia de dragões apavorantes, porém do outro lado, acenando-me, vislumbro meu príncipe encantado, cavalgando seu corcel branco, mas não pode me alcançar.
            
Súbito ele grita: — Pégaso!
            
Imediatamente surge o cavalo alado, meu herói pula-lhe na sela e ambos voam sobre a vala, chegando incólumes.
            
Quando meu amado segura minhas mãos e me beija, aparece diante de nós um flamboyant ornado com flores douradas luminescentes.

26/11/2019

A IDADE PESA



Por: Evandro Guimarães de Sousa

Há alguns dias, logo após uma reunião científica, eu conversava com uma aluna do curso de pós-graduação sobre seu projeto de pesquisa. O bate-papo estava muito interessante, pois esta aluna é muito inteligente, dedicada, educada e, além do mais, linda e charmosa. Depois de algum tempo que conversávamos, apareceu um jovem vestindo uma jaqueta com o emblema da Universidade e usando um crachá da mesma instituição. Aproximou-se, não disse patavina e entregou-me um impresso. Curioso, abri o papel dobrado e surpreso verifiquei que se tratava de um convite para participação em um programa de atividade física para idosos promovido por esta Universidade. 
Confesso que fiquei desconcertado na presença da aluna, que ao tomar conhecimento do que se tratava, tentou manter o ritmo da conversa, porém com aquela expressão de quem está louca para cair na risada! Pedi licença, informando que tinha outro compromisso e tratei de safar-me rapidinho daquela situação.
Mais adiante pensei com meus botões. Será que ele me entregou o papel porque tenho ainda alguns cabelos brancos ou foi só para acabar com o meu entusiasmo por estar conversando com a pós-graduanda?
Resolvi ler tudo o que estava escrito. Tratava-se de um programa de treinamento físico para avaliar o efeito do exercício relacionado com o sono, a memória e a capacidade funcional. Muito interessante, pois eu tenho mais de 60 anos e, de acordo com o Estatuto do Idoso, poderia ser beneficiado pelo projeto. Além do mais, não haveria nenhum custo aos participantes. Excelente! Eu já estava entusiasmado, pois não posso acrescentar nenhuma despesa adicional aos meus gastos mensais.
Outro requisito para ser selecionado, era o de não praticar exercícios físicos regularmente. Exatamente o meu caso, considerando que muito raramente pratico uma caminhada!
O voluntário não poderia ser portador de nenhuma doença crônica. Vou me matricular, já que só tenho um discreto problema com algumas juntas que insistem em permanecer endurecidas durante o período da manhã. No entanto, a minha pressão arterial está perfeitamente controlada.
Outro item: o candidato devia ser do sexo masculino. A vaga é minha, exclamei feliz da vida! Entretanto, fui fulminado pela última exigência, pois o indivíduo deveria ter idade igual ou superior a 65 anos.
Que decepção! Eu integro aquele grupo etário que é considerado como idoso, porém não posso receber as benesses daqueles com 65 anos de idade. Não posso me candidatar a uma vaga no referido projeto e nem receber o passe livre do transporte urbano!
Inconformado com esta situação fui buscar auxílio no dicionário e verifiquei, a contragosto que, idoso é um indivíduo com muita idade, um velho! Esta descoberta não me trouxe nenhum alívio, muito pelo contrário, piorou muito o meu estado de ânimo.
Resolvi então apelar para o Estatuto do Idoso que determina no artigo 10º, inciso IV: é de responsabilidade do Estado e da sociedade assegurar à pessoa idosa a prática de esportes e de diversões. De posse desta legislação, fui até o endereço indicado, onde uma simpática secretária explicou que se tratava de um projeto de pesquisa envolvendo este grupo etário. Portanto, sem nenhuma infração ao já citado estatuto do idoso.
Retornei para casa muito abatido, com o moral baixo. De repente tive uma idéia brilhante, quem sabe a instituição não criaria um programa de treinamento físico para atender esta faixa etária intermediária.
Amanhã mesmo retorno ao Departamento sugerindo esta nova proposta. Já tenho até o nome na ponta da língua: Programa de Atividade Física para Idosos Juniores, isto é, um treinamento reservado para os adolescentes da terceira idade, abrangendo os colegas com 60 a 64 anos, 11 meses e 29 dias de vida!

22/11/2019

VIDAS EM JOGO


Por: Aldo Cesar Ribeiro Carpinetti

Ele teve um pressentimento de que aquele plantão seria agitado; o suor já abria caminhos em seu tórax.
— Boa noite doutor, tudo bem? O movimento está bombando. Já tem duas crianças febris para o senhor avaliar, a mãe acha que a filha está com meningite. São todas dramáticas,
— Pode deixar, vou vê-las. Pede para a Dona Terezinha trazer uma caneca de café forte, para não perder o costume.
     — Eu peço. Ah, seu colega da emergência pediu para avisá-lo que vai atrasar, para o senhor segurar a barra até a chegada. Trânsito ruim de novo.
     — É sempre assim. Bem, vamos ver. Com este calor o povo sai para tomar uns drinques e fazem besteira na rua, com carro ou moto.
    — Verdade, daqui a pouco aparece os bebuns, isto se não aparecerem os acidentados.
     — Vira esta boca para lá, Claudinha.
     Ele entra na ala das crianças.
     — Boa noite senhora. O que houve com esta lindinha, toda pálida?
     — Ah doutor, o dia todo vomitando, só deu febre uma vez, já olhei na internet e vi que pode ser muita coisa.
     — Verdade, mas vamos com calma, vou examiná-la e pedir alguns exames.
     — E o garoto aqui, de uniforme de Batman? Já vi que está febril também.
     — Tá sim doutor, febre desde ontem, não come nada.
     Aparece na sala Claudinha.
    — Doutor, estão te chamando na emer-gência de adultos. Um professor aposentado, 92 anos, parece bala perdida, está sangrando e um rapaz de 22 anos, trazido pela polícia, troca de tiros, dizem que tentou violentar uma criança.
    — Vamos ver quem está mais grave.
   — Os dois estão, não vai dar tempo de atender, tem que escolher um deles.
   — O critério vai ser o de sempre, aquele que tem mais tempo de vida e sobrevivência.
   — O senhor é quem sabe. Salvar aquele traste de indivíduo, sabendo que mais tarde, vai aprontar de novo?
   — Claudinha, nossos plantões na periferia tem sido assim e eu não posso mudar esta realidade.
   — Eu sei doutor, a mesma história de sempre. Então tá, eu e as colegas da enfer-magem só vamos obedecer seus procedimentos. Prometo que não vou dar opinião.
   — O caso do rapaz é cirurgia urgente, pela perfuração pegou alguma artéria importante, avise a equipe.
  — Já estão preparando a sala, vamos subir com ele. Ah, acabou de chegar uma paciente com parada cardíaca, o que fazemos? A recepção disse que é uma usuária de drogas.
  — O meu colega ainda não chegou? Vou ver se ainda dá tempo de ver aquele senhor.
  — Não se preocupe com ele, já acabou. As crianças estão esperando.
  — Eu sei.
  — Ah, sua esposa mandou mensagem, quer saber se o senhor prefere pizza de mussa-rela ou portuguesa para entregar.
  — Qualquer uma, Claudinha. Não estou com cabeça para escolher.
  — Então tá, vou pedir portuguesa sem cebola, eu não gosto.
  — E o meu café? Esqueceram de mim?
  — A dona Terezinha saiu correndo para casa, o marido passou mal, está sozinho.
 Ele não estava gostando de nada disto.  Atender sem café... parece que faltava alguma coisa, tipo assim, um estímulo para continuar tudo aquilo.
 Alguns minutos depois, chega seu colega de plantão:
   — E aí, tudo bem? Desculpe, este trânsito é um inferno. Ah, nosso time está jogando, já viu na TV quem está ganhando?



16/11/2019

O BANDEIRANTE - NOVEMBRO 2019

O BANDEIRANTE - nº 324 - NOVEMBRO de 2019
(clique na capa abaixo para fazer download)


Na edição nº 324  do jornal "O BANDEIRANTE"  você encontrará o noticiário do período e na parte literária os textos em prosa e verso destes escritores: Aldo Cesar Ribeiro Carpinetti, Juarez Moraes de Avelar, José Francisco Ferraz Luz, Walter Whitton Harris e Mércia Lúcia de Melo Neves Chade. 

18/10/2019

ACONTECEU EM MAIO


Por Antonio Soares da Fonseca Junior


Em maio tudo floresce
A terra é todo esplendor
E sobre a pedra aparece
Um ramo verde e uma flor. 

Neste mês, um amor santo
Anima tudo que é triste
Por isso é que em todo canto
Canta e ri tudo que existe

Era esta a melodia que se cantava em todas as solenidades sacras de todas as igrejas de antanho, anunciando que se estava vivendo no mês mais lindo dos doze do calendário.

O próprio nome com, apenas, quatro letras já o diferencia dos outros meses que tem muitas letras e nenhum charme. Das quatro letras, tem-se somente uma consoante, sendo três vogais cuja característica é amenizar o rascante, o rústico, o grosseiro da pronúncia consonantal. A própria pronúncia desta consoante, escolhida para compor o nome, tem um som suave, melífluo e carinhoso, complementando a meiguice que o nome inspira. Poder-se-ia até dizer que este mês é a criancinha, o bebê dos outros meses.

Acrescente-se a este berço o véu diáfano das noivas que o escolheram como o melhor para realizarem o maior sonho de muitas mulheres, senão de todas. Para mais realçar tal beleza, que sejam pendurados todos os buquês das lindas flores da maternidade que o universo inteiro referencia no amor maior de um ser vivente que é o amor maternal.

Coloquem-se, agora, os pingentes e luzes cintilantes, para realçar tal ambiente, que foi a escolha da Mãe Maior em se fazer mostrar a três crianças inocentes pedindo através delas a paz universal e a reunião das famílias através de orações e súplicas a Deus para que as desavenças e questiúnculas fossem e sejam deixadas de lado e prevaleça a coesão dos valores maiores do mandamento sublime, anunciado pelo seu divino Filho, que é ver-se no outro, encarnar-se no outro, sentimento este que se batiza com o nome de Amor Fraternal.

Não é à toa que se penduram neste ambiente de recém-nascido, móbiles diversos para aumentar mais o valor do ambiente; móbiles que têm o nome de datas comemorativas nacionais e internacionais tais como o dia do homem que, duramente, arranca da natureza a sobrevivência e a sua qualidade -  Dia do Trabalhador.
            
Há o móbile lembrando que se reverencia, universalmente, o Dia do Enfermeiro, aquela pessoa que se ombreia com os profissionais da saúde no trabalho insano e, muitas vezes, ingrato de ganhar a corrida da vida contra a certeza da morte.
            
Existem outros penduricalhos enfeitando o teto do quarto, como:

- o Dia do Silêncio que pouquíssimas pessoas sabem usá-lo;
- o Dia Internacional da Liberdade de Imprensa, veículo maior da liberdade de uma nação;
- o Dia do Sertanejo, tão decantado por Euclides da Cunha por sua indômita bravura;
- o Dia da Língua Portuguesa, “a última flor do Lácio, inculta e bela” e que é sabiamente manipulada também pelos sobramistas de forma rimada ou prosaica, nas ricas fornadas mensais;
- o Dia Nacional das Comunicações, veículo importante na urgência das notícias e em suas resoluções;
- o Dia Nacional do Expedicionário que, bravamente, lutou nos campos da Itália derramando o seu precioso sangue como moeda maior na compra da paz mundial;
- o Dia Internacional da Cruz Vermelha, quer em paz quer em guerra, está sempre presente quando a luta pela vida requer o seu trabalho;
- o Dia da Abolição da Escravatura em que os grilhões de nossa vergonha foram quebrados, libertando os escravos da vergonha maior do constrangimento de ser considerado inferior e do trabalho animalesco a que foram obrigados;
- o Dia da Fraternidade onde apertamos ao peito estes mesmos escravos como irmãos filhos de um mesmo Pai;
- o Dia Internacional da Família conclamando que jamais seja quebrado o elo da união familiar, tesouro natural, que se encontra em fase de extinção;
- o Dia do Gari que com o seu trabalho estafante e mal remunerado lava a sujeira do mundo e deixa o planeta mais limpo e asseado;
- o Dia de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual Infantil pelos monstros bípedes que se fazem passar por humanos;
- o Dia do Profissional Liberal que se empenha em trazer mais equilíbrio sanitário, administrativo, financeiro e social para um mundo desequilibrado;
- o Dia do Espírito Santo em que deveríamos nos lembrar de que é a deificação do amor que o Criador tem pela sua criatura.
            
Por todas estas colocações é que coloco o mês de maio no topo piramidal das belezas do mundo.
            
E, para este escriba esculápio, metido a poeta e escritor afirmo, sem o menor rubor facial, que este é realmente o mês mais lindo do mundo porque eu também nele nasci. 


ANTONIO SOARES DA FONSECA JUNIOR
VENCEDOR DA SUPER PIZZA DE TEMA
"ACONTECEU EM MAIO"

17/10/2019

PRAIA DO TRIKE



Por: Delfim Silva Pires


Numa certa manhã, surgiu no horizonte; aliás, primeiro ouviu-se um ronco de motor. À medida que o ronco do motor se aproximava, via-se uma asa à distância; à medida que se aproximava, distinguiam-se cores exuberantes. Essa aeronave aproximou-se da praia, fez um rasante, estudou o terreno, fez dois ou três círculos completos. Iniciou uma aproximação do extremo da praia e fez um pouso suave. Ali nunca ia alguém, a não ser algum barquinho. Veio em minha direção e ultrapassou cerca de trinta metros, não sem antes fazer uma ventania que me levantou a saia (refrescando-me inteira). Demorou um tempo até que desceu meu príncipe encantado, meu explorador dos céus e agora dono daquela praia; e, a partir daquele instante, da minha vida! Veio tirando as luvas, desabotoando o blusão de couro, passando a mão pelos cabelos que começavam a ficar grisalhos. Quando começou a falar, minhas pernas ficaram bambas. Que voz linda!
— Sabe me dizer onde estou?
— Você está na sua praia.
— E qual é o nome desta praia?
— Como chama a sua aeronave?
— Aquilo é um trike.
— Pois então, a partir de hoje, esta é a praia do trike, que era só minha e agora também é sua!
— Tem mais alguém nesta praia?
— Claro, tem a minha família, meus pais e minhas irmãs. E você, que a partir de agora também é dono disso aqui.
— Por que você me trata assim, oferecendo-me seus pertences?
— Porque estava há muitos anos a tua espera.
— Como assim? O que sabe a meu respeito? Como sabia que eu vinha? Desde quando você sabia que eu vinha?
— Calma, tem o resto da tua vida para saber todas as respostas; algumas posso te dizer agora, e, aos poucos, acaba sabendo tudo! Minha mãe, desde criança, disse-me que meu marido vinha do céu, que um dia meu príncipe encantado surgiria voando. Como esta praia é inacessível, nem sei se ela dizia isso a sério ou se era brincadeira! O fato é que eu, desde criança, ia pela praia às manhãs e às tardes esperar meu príncipe encantado! E tinha certeza que um dia isso aconteceria! Para mim aconteceu: amei-te assim que o vi arrancar aquelas luvas e sussurrar: Onde estou?
— Você chegou levantando a minha saia. Por tudo isso é meu príncipe encantado! Agora preciso saber de você: se acha que pode me amar, venha que vou lhe mostrar minha mãe e toda minha família. Mas cabe a você consultar teu coração e decidir: se quer ficar ou se vai embora levando consigo a lembrança que tem agora, uma praia do trike.
— Na verdade, venho de uma terra onde não temos mar e as terras são planas, podemos voar a poucos palmos do chão durante quilômetros, onde os campos parecem desenhados pelas mãos do homem. Os campos ganham simetria com as plantações. Não sabia o porquê, mas havia alguma coisa que me fazia querer voar sobre o mar. É muito bom voar sobre o mar, não temos turbulência e as águas adquirem cores que vão do azul ao verde, e são de uma transparência que não se percebe aqui do chão. Agora sei por que aprendi a voar; soube disso no momento que vi esta praia. Valeu a pena voar para conhecer este cantinho do céu, pensei. Ao fazer o rasante vi você e me apaixonei pelo jeito que correu!
— De agora em diante, vamos construir nossa história juntos! Entramos em casa e eu gritando pela minha mãe.
— Mãe, ele veio de trike, o príncipe chegou!
E era tanta gritaria que vieram todos. A mãe perguntou:
— Já beijou o moço, minha filha?
Ao que o pai disse:
— Igualzinha à mãe. Todos se olharam e ninguém entendeu, a não ser o pai e a mãe que desandaram a rir. Ao que ele explicou: quando aqui cheguei, vim numa canoa e sua mãe também me esperava na praia, assim como vocês. E entramos na maior alegria pela casa afora.
A mãe dela nos interrompeu e disse:
— Minha filha, beija o moço para ver se vai dar certo! Então, minha filha, vá lá pra fora, beija o moço e volta com ele!



10/10/2019

NOVA EDIÇÃO DE "O BANDEIRANTE"

O BANDEIRANTE - nº 322 - OUTUBRO de 2019
(clique na capa abaixo para fazer download)

Na edição nº 323  do jornal "O BANDEIRANTE"  você encontrará o noticiário do período e na parte literária os textos em prosa e verso destes escritores: Manlio Mario Marco Napoli, Aida Lúcia Pullin Dal Sasso Begliomini, Suzana Grunspun, Fátima Mendonça Jorge Vieira e Mário Nilton Pinto Werneck

23/09/2019

A MOÇA DE CINZA

Por: Márcia Etelli Coelho

Texto selecionado para integrar a Antologia Vozes Ítalo-Brasileiras III, organizada por Rosalie Gallo e lançada dia 18 de setembro de 2019 no Círculo Italiano.

Pelas ruas tranquilas do Ipiranga nos anos 60, uma moça vivia cantarolando a música italiana “Santa Lucia”. De cabelos louros lisos e compridos, pele branca e pálida, quase sempre trajava um vestido cinza cobrindo os joelhos.
   Ela é louca – dizia minha mãe. Fiquem longe dela. Pode ser perigoso.
A jovem praticamente não saia de casa, mas ia comprar pão pela manhã bem cedo e ao findar da tarde. E, de vez em quando, rondava o quarteirão.
Tão grande era o medo que minha mãe só deixava que eu fosse para a escola depois que a jovem regressasse da padaria. Com frequência eu ficava pronta com o uniforme azul marinho impecável, lancheira a tiracolo, sapatos lustrosos e permanecia sentada no banco do jardim da frente, aguardando a liberação da rua. Tudo para evitar que nos cruzássemos pelo caminho.
Acontece que aos nove anos de idade eu ainda não entendia o perigo que ela pudesse representar. Seria contagioso? Ninguém me explicava. Apenas sabia que ela era assim devido a uma complicação do sarampo. Mas, assim como? Não exatamente louca como tantos casos psiquiátricos que muitos anos depois presenciei na Faculdade de Medicina com delírios, exageradas desinibições e gritos agressivos. Na verdade ela era simplesmente esquisita e solitária em sua ininterrupta cantoria napolitana.
De certo deveria provocar irritabilidade para quem ouvisse o tempo todo a mesma música. Porém, como ela se isolava em sua casa, quem mais sofria provavelmente era sua mãe que, por sinal, também pouco aparecia. Apesar de ser simpática e educada, a matriarca não conversava muito e limitava suas saídas para compras de sobrevivência. Ambas não trabalhavam e... O que será que elas faziam o dia inteiro sozinhas dentro de casa?
Não me lembro do nome da jovem. Aliás, pensando bem, eu nunca soube. Sempre a tratávamos como a louca da rua debaixo que saia pela manhã e à tarde para comprar pão cantando “Santa Lucia”. E só. O restante do tempo era como se ela não existisse.
Vez ou outra os meninos zombavam dela, se bem que às escondidas.
Acho que ela é uma bruxa, supôs um dos garotos. E essa leve hipótese fez com que todos se afastassem com receio de que seus olhos lançassem algum feitiço.
Da minha parte, na época, eu só desejava brincar e estudar. Ainda me lembro das tardes em que eu fazia a lição de casa ao lado do meu avô que sempre ficava ouvindo LPs de grandes tenores italianos como Gino Bechi e Tito Schipa. Só mais tarde compreendi que, ao ouvir as músicas "La Strada del Bosco" e "Non ti Scordar di me", meu avô aliviava a saudade da terra natal e eu começava desenvolver a sensibilidade que iria aplicar nos meus textos poéticos.
Ora, aquela jovem gostava da música italiana... Teria ela aprendido "Santa Lucia" ao ouvir os discos que o meu avô colocava com som bem alto? Então eu comecei a pensar que, se tínhamos pelo menos uma coisa em comum, ela não devia ser realmente perigosa. Mesmo assim, só por precaução, continuei me esquivando dela.
Eis que em uma tarde, ao escolher um doce na padaria, meu coração acelerou ao ouvir uma voz cantando “Santa Lucia”. Sim, era a louca que se aproximava, antecipando seu horário de compra, talvez para fugir de uma chuva que prenunciava desabar a qualquer instante.
Pela primeira vez não tive como fugir do encontro. O curioso foi que ela entrou na padaria exalando um perfume suave de jasmim. Ora, na minha concepção, eu sinceramente a imaginava fedida... Se ela usava quase sempre o mesmo vestido cinza, deveria não tomar banho, não é mesmo? Qual o quê. Seu cabelo estava limpo, bem penteado, usava um discreto batom rosa e pela aparência eu julguei que ela devia ter menos que 30 anos de idade.
Com calma ela entregou para o seu Teixeira, o dono da padaria, um caderninho em que se anotavam as compras para pagar tudo no final do mês. Não disse uma palavra, preferindo continuar com sua canção. Num relance olhou para mim e eu pude perceber seus grandes olhos verdes que pareciam bolas de gude...
Bem que eu tentei puxar alguma conversa para satisfazer minha curiosidade infantil. Mas minha voz travou e não foi por hipnotismo ou maldição e, sim, por pura timidez. Apenas consegui sorrir, mas ela permaneceu alheia e saiu com uma bengala de pão debaixo do braço.
Raios e trovões alertavam sobre a chuva, e eu resolvi não esperar e também fui para casa. Fiquei atrás da moça que andava devagar, arrastando os pés pela rua deserta, marcando o ritmo da velha canção.
Assim que se iniciaram as férias de julho eu e minha família viajamos para o litoral e ao retornar soubemos que a jovem havia se mudado com a mãe. Depois de um ano de vizinhança saíram sem despedidas e sem ter conquistado nenhuma amizade. Nunca mais tivemos notícias.
Até hoje quando lá em casa colocamos um CD e ouvimos Pavarotti ou Andrea Bocelli cantar "Santa Lucia", minha mãe se inquieta:
   Não gosto dessa música. Ela me lembra da louca.
Interessante como passados quase cinquenta anos, grande parte morando em outro bairro e com tantos acontecimentos já vivenciados, não conseguimos nos esquecer dela. Uma moça que se isolou da vida e o mundo reforçou esse isolamento, mas que, sem saber,  guardava em seu coração um pouco da Itália. A mesma Itália que eu carrego dentro de mim cada vez que me lembro das muitas horas em que eu fiquei estudando, ouvindo as canções que o meu avô tanto amava.
Ao contrário da minha mãe, eu me sinto bem ao escutar "Santa Lucia". Sem dúvida, pela beleza da melodia. No fundo, talvez por querer acreditar que aquela jovem tenha conseguido, a sua maneira, encontrar um jeito de ser feliz.

MÁRCIA ETELLI COELHO

16/09/2019

CHEGOU "O BANDEIRANTE" DE SETEMBRO

O BANDEIRANTE - nº 322 - setembro de 2019
(clique na capa abaixo para fazer download)

Na edição nº 322  do jornal "O BANDEIRANTE"  você encontrará o noticiário do período e na parte literária os textos em prosa e verso destes escritores: Maria Gertrudes Vagliengo Focássio, Lúcia Edwiges Narbot Ermetice, Mário Santoro Junior, Sônia Regina Andruskevicius de Castro e Josias Pereira dos Santos.

08/08/2019

VENCEDORES DAS JORNADAS SOBRAMES 2019


De 01 a 03 de agosto, o anfiteatro da Associação Médica Brasileira acolheu a X Jornada Nacional da SOBRAMES e a XV Jornada Médico-Literária Paulista, reunindo 12 regionais que abrilhantaram as sessões literárias em clima de harmonia e calorosa confraternização.  

Parabéns aos premiados da Jornada:

CATEGORIA POESIA
Primeiro Lugar: Lamento do Pescador  Hugo Costa Filho (MS)
Segundo Lugar: Pó da Terra   José Carlos Serufo (MG)
Terceiro Lugar: Embaraçada   Izabella Cristina Cunha (SP)

CATEGORIA PROSA:
Primeiro Lugar: A Amante   Márcia da Silva Sousa (Maranhão)
Segundo Lugar: Carta Para Ninguém   Izabella Cristina Cunha (SP) 
Terceiro Lugar: Uma História Nascida em Novembro  Alitta Guimarães  (SP)

Os textos "Lamento do Pecador" e "A Amante" encontram-se postados a seguir.
Todos os textos serão publicados na edição especial de "O Bandeirante".

LAMENTO DO PESCADOR



Por: Hugo Costa Filho 
(Regional Mato Grosso do Sul)
PRIMEIRO LUGAR CATEGORIA POESIA
JORNADAS SOBRAMES 2019
***


Vida que celebra o rio,

Mãos que protegem do frio,
Remando forte e sozinho,
A canoa em desalinho,
A cachaça a dar-lhe o prumo,
Pois, sem peixes, segue o rumo,
Das águas, redemoinhos,
Buscando pelos caminhos,
Onde os cardumes seguiram,
Pensando: Por que sumiram?

Foi num gole a mais de pinga,
Que se lembrou da restinga,
E pegou-se a lamentar,
A teimosia em pescar,
Sem usar "anzor de gaio",
Bóias, redes e o "caraio",
Se os peixes na decoada,
Com pouco oxigênio n’água,
Morrem tantos que dá pena,
Que nem vão à piracema...

O pescador de ilusão,
Busca nas águas em vão,
Piscosidade de outrora,
Pelo pantanal a fora,
Que dantes tinha pacus,
Pululantes baiacus,
Hoje não mais encontrados,
Muito menos os dourados,
Nem tão pouco o surubim,
Nesse mar d’água sem fim...

Num rompante sem pudor,
Devora o grito na dor,
Chorando as mágoas no rio,
Nas margens, horas a fio,
Conjugando sonho e medo,
Tangendo a linha no dedo,
Talvez buscando um milagre,
Ou pelo menos um bagre,
Converte o sol em razão,
Enganando a solidão...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...