06/06/2018

O BANDEIRANTE - nº 307 - Junho de 2018

(clique na capa abaixo para fazer download)

Na edição nº 307  do jornal "O BANDEIRANTE"  você encontrará o noticiário do período e na parte literária os textos em prosa e verso destes escritores: Marcos Gimenes Salun, Sérgio Perazzo, Luiz Jorge Ferreira, Silvana de Azevedo Brito, Aline Andruskevicius de Castro e Lúcia Edwiges Narbot, Ermetice .

ACOMPANHE  os eventos comemorativos dos 30 anos de SOBRAMES.

O jornal O BANDEIRANTE é interativo: através dos links da edição em PDF 
você terá acesso a outras informações sobre os eventos e atividades da Sobrames-SP
noticiados nessa edição.

18/05/2018

SOMBRAS


por: Marcos Gimenes Salun
Vencedor do "Prêmio Bernardo de Oliveira Martins" - 2016/2017

Uma luz atravessa a janela entreaberta
esparrama o silêncio
que é tudo.

Na mudez solitária de um quarto vazio
há medo da sombra
que é nada.

Há um toque calado do claro atrevido
que vem da janela.
Quietude.
        
Espairece o vazio da densa agonia
do medo incontido
que afoga.

Renasce a coragem e vem um alento
da luz da janela
que é lua.


RIO SECO


por: Luiz Jorge Ferreira
1ª Menção Honrosa no "Prêmio Bernardo de Oliveira Martins" - 2016/2017

Este rio que nasce de mim não tem margem
Não tem carne nem neles peixes se amontoam 
Não barulha nem ondula nem marulha
 se arrasta como um cego
tateando as entranhas da terra
Onde ele irá não sei
Sei onde cheguei.

Pelas lentes de Graça Tuma.
Vejo o Rio.
Vejo Rita... vejo Moreira...
E outros amados meninos e meninas.
Que o nome  não descrevo 
Porque não me atrevo a lhes acordar do sono.

Onde anda Telma
Subiu nas telhas?
Abaixou-se detrás de estrelas.
Ou simplesmente gastou a fala
Dizendo versos.

NO RÁDIO DO CARRO


por: Sérgio Perazzo
2ª Menção Honrosa no "Prêmio Bernardo de Oliveira Martins" - 2016/2017


Enquanto esperava a morte,
o ônibus passou de luzes apagadas
entre dois postes.
Não sei se azar ou sorte.
Não foi dessa vez,
pensou e repensou
imagens requentadas.

Ser ou não ser passageiro dessa carga,
dessa aventura amarga,
desse sol de condenados,
sentenciados a cumprir
tais desígnios dessa vida,
da vida de todo mundo,
a distrair em vão tais pensamentos
nos corredores dos shoppings,
nas minisséries da televisão,
só para listar o comum
entre mil alternativas
de fundo despistamento,
de maquiagem social,
de cruzamento entrecortado
de mensagens de whatsappes
teclando por si mesmas
neste intervalo, neste intermédio,
qual praga sem vacina
e sem remédio.

Qual semente, ainda por germinar,
germinar o grão
e do grão fazer brotar farinha
e pão.

Florescer a flor de cáctus
apesar dos espinhos, das carcaças,
das queixadas de gado
espalhadas a quatro ventos.
Apesar do cerrado.
Apesar do sertão.

Apesar do deserto,
da nostalgia de mar,
trem da saudade
sem trilho ou dormente.
Apesar da escassa chuva,
do sol inclemente
que tudo resseca
no âmago da anima,
anima mundi,
alma visceral,
terra arrasada,
terra ferida que grita
e que berra,
terra poupada
dos saques
e dos vestígios,
espólios,
de guerra.

Não foi dessa vez,
nem será da próxima
ou da última, talvez,
mesmo porque ainda
falta ouvir e acalentar
um resto de música
no rádio do carro,
como um escarro
preso na garganta,
preso no desprezo
do desapego,
do desafeto,
no malfeito
em que me deito,
tocando pelo avesso
o fundo do peito.

16/05/2018

Lançamento: "OS PREMIADOS - PRÊMIO BERNARDO DE OLIVEIRA MARTINS"

AGORA É A VEZ DA POESIA

Em 2018 a Regional São Paulo está comemorando Jubileu de Pérola: 
30 anos de fundação e de vida literária intensa e produtiva!
Continuando as festividades, temos a honra de informar o lançamento, 
na Pizza Literária do dia 19 de maio, do livro
OS PREMIADOS - Prêmio Bernardo de Oliveira Martins”,
que contempla a história do concurso que premia anualmente a melhor poesia, todos os textos já premiados e tudo sobre quem já conquistou esse certame.

O livro é vendido sob encomenda dos interessados. Valor: R$ 40,00



UM LIVRO PARA FICAR NA HISTÓRIA
 O livro é uma produção da RUMO EDITORIAL e tem as seguintes características:
216 páginas em papel pólen / Tamanho 14,0 x 21,0 cm
Capa colorida com orelhas 
 Editora: Rumo Editorial / ISBN 978-85-60380-59-6
 Organizador: Marcos Gimenes Salun
Prefácio: Josyanne Rita de Arruda Franco

AUTORES PREMIADOS INTEGRANTES DO LIVRO
Alcione Alcântara Gonçalves / Aldo Miletto / Edson Batista de Lima / Geovah Paulo da Cruz / Grazielle Martins Peixoto de Oliveira / Hildette Rangel Enger /
Jacyra da Costa Funfas / José Jucovsky / José Carlos Gonzales / José Rodrigues Louzã /Josyanne Rita de Arruda Franco / Karin Schmidt Rodrigues Massaro / 
Luiz Jorge Ferreira / Márcia Etelli Coelho / Marcos Gimenes Salun / Marcos Roberto dos Santos Ramasco /Roberto Caetano Miraglia / Sérgio Perazzo

CONTEÚDO
O livro é composto de cinco capítulos contendo: 
CAP.1 - A íntegra de todos os textos literários premiados; 
CAP.2 - Uma pequena biografia dos 18 autores premiados, com foto; 
CAP.3 - Ficha técnica das 19 edições já realizadas, indicando os vencedores de cada concurso, nome dos jurados, quantidade de textos participantes, tabelas, etc.; 
CAP.4 - Pequena biografia (ilustrada) do patrono do prêmio, Dr. Bernardo de Oliveira Martins; 
CAP.5 - Breve histórico e regulamento do concurso.

AQUISIÇÕES
A obra será vendida sob encomenda dos interessados. O custo de cada exemplar será de
R$ 40,00 no dia do lançamento. Vendas posteriores serão atendidas por encomenda direta ao editor e entregues nas Pizzas Literárias. O custo será o mesmo, para qualquer quantidade pedida.  Para entrega pelo correio será acrescida a tarifa de postagem ao preço em vigor.

 O livro está à venda também na


ENCOMENDE O SEU POR E-MAIL

13/05/2018

Memórias Literárias de FLERTS NEBÓ


Leia neste fascículo:
Uma aventura temerária / Amor, sempre amor / Noite de luar / Sonhos / Maravilhoso mar / Histórias reais que passaram a ser contos infantis / O conto / Meu desejo / Ela / Prece ao Senhor / Visita à minha biblioteca / A muralha de São Paulo / Jesuítas do  Planalto / Um dia, uma vez / O barco do amor.
******** 

Como parte das comemorações dos 30 anos de fundação da regional São Paulo, foi lançada  a série de fascículos denominada "MEMÓRIAS LITERÁRIAS". O projeto, elaborado e editado por Marcos Gimenes Salun, prevê a publicação de pelo menos um fascículo individual para cada autor que participou da trajetória da SOBRAMES paulista nestes 30 anos. Os fascículos virtuais já estão sendo publicados para download GRATUITO neste blog. 
Veja se o seu fascículo já está disponível clicando neste link:

ADQUIRA VERSÃO IMPRESSA
Os interessados na impressão de qualquer dos fascículos poderão encomendar pelo 

Os preços e quantidades constam na página do projeto neste blog.

09/05/2018

Memórias Literárias de ALCIONE ALCÂNTARA GONÇALVES


Leia neste fascículo:
Estrela / O síndico do amor / Prolegômenos / A dança do Universo / Convite ao amor / Reencontro / As coisas boas da vida / Reflexo pupilar / Mãe / A sombra na dança do Universo / Poesia é terapia / O milagre da vida / Morrer e renascer / Pai amor / Poeta, um revelador / A inconfidência mineira / Diversidade biológica e cultural do Xingú / Ode ao Xingú / O candomblé da Bahia
******** 

Como parte das comemorações dos 30 anos de fundação da regional São Paulo, foi lançada na Pizza Literária do dia 19 de abril de 2018 a série de fascículos denominada "MEMÓRIAS LITERÁRIAS". O projeto, elaborado e editado por Marcos Gimenes Salun, prevê a publicação de pelo menos um fascículo individual para cada autor que participou da trajetória da SOBRAMES paulista nestes 30 anos. Os fascículos virtuais já estão sendo publicados para download GRATUITO neste blog. 
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07/05/2018

Memórias Literárias de WALTER WHITTON HARRIS


Leia neste fascículo:
O parto / Mulher / A carroça de feno / Sampa, uma história em dez linhas / Memórias de São Paulo / In memorian / A viagem (frustrada) / O relógio / Soldado raso / Borboletas / Uma pedra na história da Escócia / Avicena / Tempus Fugit / Apelo
******** 

Como parte das comemorações dos 30 anos de fundação da regional São Paulo, foi lançada na Pizza Literária do dia 19 de abril de 2018 a série de fascículos denominada "MEMÓRIAS LITERÁRIAS". O projeto, elaborado e editado por Marcos Gimenes Salun, prevê a publicação de pelo menos um fascículo individual para cada autor que participou da trajetória da SOBRAMES paulista nestes 30 anos. Os fascículos virtuais já estão sendo publicados para download GRATUITO neste blog. 
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Os preços e quantidades constam na página do projeto neste blog.

03/05/2018

CHEGOU "O BANDEIRANTE" DE MAIO DE 2018

O BANDEIRANTE - nº 306 - Maio de 2018

(clique na capa abaixo para fazer download)


Na edição nº 306  do jornal "O BANDEIRANTE"  você encontrará o noticiário do período e na parte literária os textos em prosa e verso destes escritores: Roberto Antonio Aniche, Josef Tock, Márcia Etelli Coelho, Lígia Terezinha Pezzuto e Camilo André Mércio Xavier

ACOMPANHE  os eventos comemorativos dos 
30 anos de fundação da regional São Paulo

O jornal O BANDEIRANTE é interativo: através dos links da edição em PDF 
você terá acesso a outras informações sobre os eventos e atividades da Sobrames-SP
noticiados nessa edição.

29/04/2018

Memórias Literárias de LUÍZ JORGE FERREIRA


Leia neste fascículo:
O diário / Exílio / O azul / Punho serrado / Meio dia / Flauta / Modinha pra ela / Gira vento / Três contos negros para um cara pálido / Pai e família / Frasco vazio / Filha de Davi / Tosca / Rio seco / Oníria / Colina / Sal para cavalos velhos / Senhorio

******** 

Como parte das comemorações dos 30 anos de fundação da regional São Paulo, foi lançada na Pizza Literária do dia 19 de abril de 2018 a série de fascículos denominada "MEMÓRIAS LITERÁRIAS". O projeto, elaborado e editado por Marcos Gimenes Salun, prevê a publicação de pelo menos um fascículo individual para cada autor que participou da trajetória da SOBRAMES paulista nestes 30 anos. Os fascículos virtuais já estão sendo publicados para download GRATUITO neste blog. 
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27/04/2018

Memórias Literárias de GESSILDA PORTO ALEGRE FALCÃO


Leia neste fascículo:
Bandeira da melhor idade / Primeiro encontro / Volúpia / Eu te acuso! / Lágrimas / Não estou só / Violão / Mensagem de paz / Raízes / Lua / O mar / Silêncio / Noite de ronda / Pano de amostra / Peregrino da noite / Sombra / Brasilidade / Mulher / Reconciliação / Necessária separação.  
******** 

Como parte das comemorações dos 30 anos de fundação da regional São Paulo, foi lançada na Pizza Literária do dia 19 de abril de 2018 a série de fascículos denominada "MEMÓRIAS LITERÁRIAS". O projeto, elaborado e editado por Marcos Gimenes Salun, prevê a publicação de pelo menos um fascículo individual para cada autor que participou da trajetória da SOBRAMES paulista nestes 30 anos. Os fascículos virtuais já estão sendo publicados para download GRATUITO neste blog. 
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24/04/2018

Memórias Literárias de JOSÉ RODRIGUES LOUZÃ



Leia neste fascículo:
Alvorecer / Um amor platônico / Marulho / Soneto triste / Depois do trabalho / Uma carta / A tempestade / Esperança / As porteiras do Brás / Paraíso perdido / Castelo de areia / Na porta da escola / Os meus quadros / Árvore amiga / A vida /Anoitecer na mata.

******** 

Como parte das comemorações dos 30 anos de fundação da regional São Paulo, foi lançada na Pizza Literária do dia 19 de abril a série de fascículos denominada "MEMÓRIAS LITERÁRIAS". O projeto, elaborado e editado por Marcos Gimenes Salun, prevê a publicação de pelo menos um fascículo individual para cada autor que participou da trajetória da SOBRAMES paulista nestes 30 anos. Os fascículos virtuais já estão sendo publicados para download GRATUITO neste blog. 
Veja se o seu fascículo já está disponível clicando neste link:

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22/04/2018

Memórias Literárias de HELIO BEGLIOMINI


Leia neste fascículo:
O jeitinho brasileiro / Se / Vida à luz da vocação médica / As coisas boas da vida / Reflexões sobre a ética no contexto hodierno / Terra de índio / O teatro, a arte e os atores / Se eu não puder / Ciranda da vida / Quimeras do tempo.

******** 

Como parte das comemorações dos 30 anos de fundação da regional São Paulo, foi lançada na Pizza Literária do dia 19 de abril a série de fascículos denominada "MEMÓRIAS LITERÁRIAS". O projeto, elaborado e editado por Marcos Gimenes Salun, prevê a publicação de pelo menos um fascículo individual para cada autor que participou da trajetória da SOBRAMES paulista nestes 30 anos. Os fascículos virtuais já estão sendo publicados para download GRATUITO neste blog. 
Veja se o seu fascículo já está disponível clicando neste link:

Helio Begliomini foi o primeiro a encomendar a versão impressa de seu fascículo. Os interessados na impressão de qualquer dos fascículos poderão encomendar pelo e-mail rumoeditorial@uol.com.br, Os preços e quantidades também constam na página do projeto, neste blog.



08/04/2018

O BANDEIRANTE CHEGOU

O BANDEIRANTE - nº 305 - Abril de 2018

(clique na capa abaixo para fazer download)

Na edição nº 305  do jornal "O BANDEIRANTE"  você encontrará o noticiário do período e na parte literária os textos em prosa e verso destes escritores: Mário Santoro Junior, Helio Begliomini, José Francisco Ferraz Luz, Juarez Moraes de Avelar e Suzana Grunspun.

ACOMPANHE  os eventos comemorativos.

O jornal O BANDEIRANTE é interativo: através dos links da edição em PDF 
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noticiados nessa edição.

26/03/2018

A FILHA DO CHEFE DA ESTAÇÃO


por: SÉRGIO PERAZZO
Vencedor do Prêmio Flerts Nebó - Melhor prosa de 2016/2017

Acontece que choveu. Bem na hora de atravessar a rua, desesperado por um cafezinho de meio de tarde. Como tinha esquecido o guarda-chuva em casa, fiquei experimentando a água que pingava dos telhados e das folhas das árvores, avaliando os pingos um pouco mais grossos que uma cortina de garoa. Calculei que três quadras, ida e volta, seriam suficientes para encharcar o cabelo e escorrer um riacho pela gola da jaqueta no arremate do pescoço, o que era um tanto temerário para quem já sentia na promessa de coriza uma gripe incubada ou o exagero de uma pneumonia galopante. Ainda por cima, era uma chuva gelada de causar calafrios, chuva de início de inverno, nada bem-vinda como águas de primavera, que fornecem  matéria-prima para o florescer dos bons-dias e o adormecer macio dos boas-noites trocados em sussurros, a cada esquina, com cada transeunte tornado cúmplice.

            Por isso não fui. Faltei ao encontro comigo mesmo, se quiserem entender assim. Me recolhi para dentro, para o conforto da sala aquecida e atapetada de mim mesmo, convidando jogar conversa fora e calçar chinelos de lã, como que atendendo ao chamado de um sino. O sino de bronze da estação de trem de uma cidade pequena do interior de Minas. Maria-fumaça, metade passageiros de chapéus de palha, metade carregamento de minério de ferro, qual Itabira,  qual arrumação poética, um pé em cada degrau, um Drummond em cada estrofe, toada de trem chiando em cada partida, soluçando vapor e fumaça pela chaminé em cada despedida. Cuspindo fogo pela fornalha, tal qual besta-fera e dragões de contos de fadas e de romances de cavalaria.

            E assim atendi ao chamado deste sino imaginário e embarquei no lusco-fusco da memória para aquela praça, deserta aquela hora, você sentada no banco me esperando como se estivesse estado sempre ali, um marco de pedra em sua própria homenagem, a filha mais nova do chefe da estação de trem, imune aos trilhos reluzentes, aos dormentes rabugentos, ao sino de partidas e chegadas juntando passageiros atrasados e dispersos.

              O dedo fazendo caracol em seus cabelos, um gesto tipicamente seu, escarafunchava pensamentos, reorganizava sensações, alisava sentimentos que apenas não retornariam  mais, por mais que se tentasse remover a grossa camada de poeira acumulada, tanto tempo depois, como se tivéssemos transformado as coisas do coração numa espécie de arquivo morto. Mas seu gesto ficou numa imagem cristalizada e assim permaneceu em mim, intocável e sem retoques.

            A verdade é que aquele namorico de julho foi feito para durar uma semana, não mais. Só não era totalmente platônico porque era correspondido no mesmo tom de timidez e devoção, depois do que eu voltaria para a cidade grande e nos perderíamos nos imprevistos previsíveis da vida. Previsivelmente. Ficou o carimbo de um beijo no rosto. Ficaram o vestido verde e os joelhos juntos e recatados. Ficou a farda azul-marinho com botões dourados e o quepe afrancesado, de gendarme, de chefe de estação, do seu pai, fantasma de carne e osso que rondava por ali, supremo monarca e dono do sino de bronze, guardião do tempo na passagem de cada trem, senhor do vento e dos destinos, com um sorriso complacente de rosto a rosto, flagrando a filha de catorze anos com seu primeiro namorado, um pequeno susto esbaforido não querendo intromissão, quase um pedido de desculpas, passando ao largo como se nada tivesse visto e testemunhado.

            Num tempo e lugar de paixões latinas e boleros, Armando Manzanero, seu compositor-rei me dizia, cantando, que contigo aprendi a ver el otro lado de  la luna e, nada, definitivamente, nada,  desfazia o encantamento. Pelo contrário. Cada detalhe compunha um cromo, uma aquarela a enriquecer cada traço de um momento, só definido pela intensidade de quem estava ali sem nenhuma pretensão além de viver este ali, de gravar na memória aquilo que não mais se repete, a reboque do trem, sumindo no túnel, na curva, no balanço das horas, na rabeira dos vagões, você enrolando seus cabelos, me esperando num  banco de praça pintado com propaganda da farmácia ou do armazém, perto da plataforma da estação, do lado de lá da Matriz, o sino retinindo, convidando ao embarque imediato na quinta dimensão do tempo, encerrando a longa espera entre farrapos de conversas e acenos brancos de lenços de cambraia passados a ferro, goma e saudade.

EM BUSCA DA LUZ


por: SHEILA REGINA SARRA
1ª Menção Honrosa no Prêmio Flerts Nebó - 2016/2017

Olhava para o lustre de cristal e não acreditava no que via. Mais uma lâmpada queimada. A última, lembrava bem, ainda não fazia nem uma semana. Apesar de todos os gastos com limpeza e manutenção, adorava a sua sala iluminada pelos reflexos dos cristais. Havia pago uma verdadeira fortuna por ele, mas valia por cada minuto de contemplação e de prazer que lhe proporcionava. E, agora, mais uma lâmpada apagada. Inconscientemente, suas mãos crisparam-se na almofada, numa reação de reprovação e tristeza ante a cena. Teria que ligar novamente para o fabricante e agendar uma visita para desmontar cuidadosamente as peças e trocar a lâmpada queimada. Um transtorno para sua agenda lotada, um contratempo que lhe amargava a noite, um gasto a mais em seu orçamento. Tentou lembrar como fizeram o conserto na última visita. Tinha uma escada, e algumas ferramentas, faltava-lhe apenas o ajudante...

Morava só há muitos anos e se acostumara a viver assim. Fazia companhia para si mesmo e não sentia falta de ninguém, exceto para consertar o lustre. Tinha um certo medo de altura e dois degraus já lhe faziam mal. Tentou ligar para o zelador, mas havia saído. O vizinho, nem pensar. Não ousaria, também, chamar nenhum colega de trabalho àquela hora. Abriu a internet e pôs-se a procurar alguém disponível para um conserto imediato. Achou um pequeno anúncio que dizia: gentleman disponível 24 horas para qualquer programa. Pensou nas palavras e resolveu arriscar, afinal, com dinheiro tudo se pode pedir. Mandou uma mensagem para o número indicado e logo obteve uma resposta. Estava a caminho. Separou as ferramentas, afastou os móveis, colocou algumas facas à disposição, jogou almofadas pelo chão para amortecer a eventual queda de algum cristal e pegou alguns pedaços de fio elétrico para o caso de haver alguma necessidade. Ligou um abajur auxiliar e desligou o lustre.

Em menos de meia hora o interfone tocou e o gentleman subia pelo elevador. Era um rapaz bem novo, com roupas bem talhadas e um suave perfume. Entrou na sala com um ar de curiosidade. Olhou para mim, para as ferramentas, as facas e os fios e saiu correndo. No celular, restou uma mensagem: sadomasoquista eu não atendo.  


REFLEXÕES DE UM QUASE SUICIDA


por: RODOLPHO CIVILE
2ª Menção Honrosa - Prêmio Flerts Nebó 2016/2017

Semelhante ao prólogo da ópera Pagliacci de Ruggero Leoncavallo, Tonio passa a cabeça pela fresta da cortina pedindo permissão, cantando “Si può? Signore, Signori.”

O enredo se passa na Calábria.

O que eu vou agora descrever passou-se no Bexiga em São Paulo, o bairro dos calabreses.

A minha santa mãe fez a questão de dar à luz num dia bem festivo (25 de janeiro de 1925). Tinha bom gosto! Por sua vez, o meu pai, olhando o rebento e o achando muito bonito, parecido com o artista Rodolpho Valentino, deu-me o nome de Rodolpho Civile. O meu pai sabia comparar...

Pulando esta “melhor” parte, fui crescendo, crescendo, como acontece com todo o mundo... Passei por várias fases importantes: a infância, juventude. Estudei medicina. Casei com uma bela e especial criatura de nome Maria da Glória, que me deu de presente 3 filhos e depois vieram 2 noras e 4 netos, uma família maravilhosa!

Maria da Glória, um grande amor: intenso, profundo e sublime! Partiu levada pelos anjos ao Paraíso, onde ficará na eternidade.

E eu? Independente da minha vontade, fiquei velho! De início não acreditei... Mas, depois que me olhei no espelho, tive de aceitar a triste realidade. Percebi que estava “bem usado”. Procurei a folhinha: 92 anos! Que calamidade... Não me resta outra coisa, pensei: o suicídio! Naturalmente, bem agradável!

No tempo de Sócrates, se usava cicuta. Mas... Pode irritar a garganta. Mudei de ideia!
Pensei, então, numa corda bem grossa, como foi usada por Tiradentes. Mas... Sempre há um “mas”... Pode machucar o meu lindo pescoço. E pescoço de calabrês é muito duro... Desisti.

E que tal um tirozinho? Uma bala entrando pelo buraquinho da orelha e saindo do outro lado? Dentro do cérebro um estrondo. Pode assustar as pessoas... Mudei de ideia...

Inesperadamente, uma sábia solução. Os meus neurônios, já bem estragados pelo uso, apontaram-me um caminho bem mais agradável: a celebração, junto aos meus queridos familiares e amigos, pizzas recheadas de chiaccheri!  

 A felicidade bateu de novo à milha porta! Com ela os três bens da vida, como diziam os antigos gregos e que também desejo a todos: Saúde, Paz e Amor. Muito amor, pois o amor é a essência da vida.

A minha gratidão à Vida e a todos. Beijos e abraços.

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