24/06/2019

EPITÁFIO



Pensei
uma vez
ouvindo um velho
que conhecia
outros velhos
e o mar

Que não é possível
estar morto
pois
o que não existe
não pode
estar

Após a morte
não existo porque sou
o que me fazem
sou o que faço
sou minhas
interpretações
intermináveis
sou
essas partes
inseparáveis

Como ação
e não estado
constante
a morte é
apenas
um pedaço
da vida
seu último
instante

Em oposição
não se nivelam em porte
eis que
a vida ganha
duração eterna
se comparada
à morte

Uma se reproduz
em escala global
se continua
infinitamente
e a outra segue
inerente
mas pontual

Por isso
não chore
filho que me lê
com a minha morte
o Universo perde
de forma
praticamente indolor
numa pequena
desistência
um grande
admirador.


SAMUEL DO NASCIMENTO PONCE
Estudante da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP)
PRIMEIRO LUGAR CATEGORIA POESIA
II INTERMED LITERÁRIA PAULISTA SOBRAMES SP


22/06/2019

VENCEDORES DA II INTERMED LITERÁRIA PAULISTA 2019 SOBRAMES SÃO PAULO


CATEGORIA PROSA

PRIMEIRO LUGAR:
ANAMNESE POÉTICA
LUCAS HENRIQUE PEREIRA
ESTUDANTE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO (UNIFESP/EPM)


SEGUNDO LUGAR:
CIRCULAR AVENIDAS
AFONSO CARLOS NEVES
MÉDICO FORMADO PELA ESCOLA PAULISTA DE MEDICINA (UNIFESP)


TERCEIRO LUGAR:
"S"
CAROLINA VILELA MARTINS TONIN
ESTUDANTE DA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (FMUSP)



ANAMNESE POÉTICA



            -Doutor, estou sentindo que perdi a poesia em minha vida.
            Não é todo dia que somos confrontados com uma frase assim. Normalmente a queixa é mais próxima de “estou me sentindo triste” ou “estou com dor aqui ou ali”, mas perder a poesia era algo novo para mim. Não me lembro de ter estudado esse quadro na faculdade, nem debatido algum caso assim com meus professores. Mas aquela moça, cabelos longos e negros, olhos azul-curioso, lançava-me essa questão.
            -O que a senhora quer dizer com “perder a poesia”?
            -Isso mesmo, perdi a poesia. As pedras no meu caminho, agora são só pedras mesmo. Nada mais tem rima, nem sonoridade. Agora minha vida está uma crônica chata de jornal.
            Aquilo começava a ficar cada vez mais confuso para mim. Sonoridade? Pedra? Seria um quadro depressivo? Resolvi arriscar:
            -A senhora se sente triste, desanimada, sozinha?
            -Se o senhor acha que eu estou com depressão, já vou logo avisando que não é isso. No começo até pensei que fosse, mas depois vi que não: o problema é a poesia.
            -E quando começou esse quadro?
            -Ah, acho que faz um mês, mais ou menos... quando eu entrei no meu novo emprego.
            -A senhora trabalha com o que?
            -Trabalho num escritório de advocacia, organizando arquivos, digitando coisas, sabe? Trabalho tradicional. No início, estava muito feliz, poxa, um trabalho novo, novas perspectivas. Ainda conseguia entender metáforas, ainda via alegria nos versos espalhados pelos muros dessa cidade. Mas a rotina, com o tempo, não sei, doutor, acho que agora sou um verso metrificado, sabe? Decassílabo...
            Nunca me senti tão impotente na minha vida. Decassílabo? Seria isso um sinal clínico do qual nunca haviam me informado?
            -O que aconteceu ao longo desse tempo?
            -Eu acho que me tornei um poema parnasiano, doutor. Sabe, daqueles bem fechados, poema de dicionário? Sempre que ia escrever algum relatório para meu chefe, tentava colocar uma metáfora, uma prosopopeia, mas isso sempre era visto com maus olhos. Um dia, escrevi assim: “Nossa cliente relata que seu marido é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. Pessoa, doutor, todo mundo gosta de Pessoa. Quando meu chefe leu aquilo, achei que iria ser demitida. Fez-me prometer que nunca mais faria aquilo, sob risco de ser mandada para o olho da rua. O senhor mesmo, doutor: pode receitar um tango argentino para algum de seus pacientes?
            -Creio que não.
            -Bandeira, doutor, Bandeira. Acho que então deve entender o que eu quero dizer, não?
            Não estava entendo nada daquilo, mas tinha certeza que nenhum medicamento surtiria efeito ali. Talvez um psicólogo? Psiquiatra? Também achava que não era o caso. Continuei a conversa.
            -Mais alguma coisa aconteceu nesse meio tempo?
            -Meu namorado. Ele é um livro realista, doutor. Quer saber tudo nos detalhes mais íntimos, às vezes é irônico, sempre realista. Disse que o meu amor por ele batia na aorta, ele me mandou ir ao médico. Drummond, doutor. Não sei mais o que fazer. Tenho medo de me tornar um manual de carro.
            Agora tinha certeza que o caso não era para remédios nem tratamento médico. Resolvi arriscar um tratamento, pois não sabia mais o que fazer, mas queria ajudar a moça despoetizada. Resolvi entrar no jogo.
            -A senhora ainda lê?
            -No máximo o jornal do metrô, doutor. Não tenho tempo, a vida está muito corrida, sabe?
            -Certo, vamos tentar o seguinte. Vou te receitar 3 doses diárias de poesia. Uma de manhã, uma no almoço e uma no jantar. Tente não ler nada pesado depois do jantar ou antes de dormir porque pode fazer mal. De manhã, opte por textos mais profundos. Não precisam ser textos longos, tente achar um tempo para isso. Faça isso por quinze dias e volte aqui para verificarmos os resultados.
            A moça me olhava com cara de desconfiança, porém sorria. Agradeceu, pegou a receita e saiu. Encostei-me à cadeira e pensei em como me fez falta a disciplina de patologia literária na faculdade.


LUCAS HENRIQUE PEREIRA
Estudante de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP/EPM)
PRIMEIRO LUGAR CATEGORIA PROSA
II INTERMED LITERÁRIA PAULISTA SOBRAMES SP


CIRCULAR AVENIDAS


     Era 1977. Andar a pé, de ônibus, de metrô, tantas vezes. Tanto que, nas mesmas horas do dia ou da noite se encontravam as mesmas pessoas, quase como um relógio certeiro em suas badaladas. Assim era grande parte da vida de João. De casa para o trabalho, do trabalho para a faculdade, da faculdade para casa. Nos caminhos, gente que marcava humanamente os trajetos. Alguns conhecidos pelo nome, outros apenas pela presença. Eventualmente, havia variações nessa rotina, principalmente por conta do cinema, diversão barata de então. Em algumas destas ocasiões, João entrava no ônibus Circular Avenidas.
Para ele, era como entrar em um mundo diferente em relação à cidade do lado de fora, aparentemente caótica, mas ele sabia que organizada naquelas pessoas-relógioque a compunham. Dentro do Circular Avenidas a impressão era diferente,as pessoas pareciam sempre variar. Alguma repetição ele viu quando uma mesma estudante, de uniforme,apareceu duas vezes; também um senhor com chapéu e guarda-chuva por três vezes, mas, em horários diferentes. João começou a pensar sobre isso e percebeu que ele não usava o Circular Avenidas tão regularmente como os outros ônibus ou meios de transporte. Constatou que não eram os passageiros que variavam, ele é que variava os horários.
Mas, havia uma percepção diferente dentro do Circular Avenidas, que erareforçadapelo fato de que nunca estava muito cheio. As pessoas entravam e saiam em uma certa cadência, talvez por ser um trajeto “circular”, como dizia o nome, sem fim nem começo. Até isso virou uma lenda: alguns diziam que o início era na Avenida Paulista, outros na São João. O fato é que esse ônibus não ia para lugar nenhum, e ao mesmo tempo para vários. Se alguém se distraísse, ou dormisse, poderia constatar estar de volta no mesmo lugar em que havia partido.
     Em certa ocasião, João foi assistir àSessão Maldita do Cine Majestic, que começava à meia noite. Depois do filme, de madrugada, sobrou só o Circular Avenidas andando pela cidade. A partir dele, teria que andar por meia hora a pé até chegar em casa, o que lhe parecia bastante razoável. Foi nesse transcurso, que conheceu, sentado lá no fundo do ônibus, o Percival.
Conhecer, ele não conheceu assim como se conhece as pessoas, com apresentações formais. João estava sentado no meio do ônibus, ladeado e cercado por pessoas um tanto cabisbaixas de sono e da vida. De repente, ouviu uma alta gargalhada e um berro: “Segura essa, Gilberto!”. Gilberto era o motorista. Percival falou isso em uma curva acentuada e veloz, que o ônibus fez na esquina vazia da Avenida São João com a Avenida Ipiranga. Na dita exclamação, os sonolentos passageiros levantaram as pálpebras, depois os olhos e viraram a cabeça, exceto um senhor sentado em um banco perfilado ao lado do lugar de Percival, provavelmente porque já estava acostumado a esses repentes. Aliás, Percival não estava sentado em um banco, mas espalhado em vários, que, conectados, preenchiam o fundo do ônibus. Mais adiante, o Circular parou fora do ponto. Alguns passageiros elevaram sobrancelhas curiosos, pois perceberam, no tempo do corpo, que a parada não era comum. Gilberto saiu do ônibus, retirou um cachorro do meio da rua e voltou ao volante. Percival: “Aêh, Gilberto! Você tem o coração de ouro!” Gilberto retrucou: “Quieto, Percival!”. Eis a revelação do nome.
Alguns pontos à frente, hora de descer. João ficou encafifado com aquela personagem que acrescentou uma indagação sobre o seu mundo à parte do Circular Avenidas.Por alguns dias, ficaram na memória mais os berros do que a imagem do Percival, além daquelas cenas.
Alguns dias depois, em hora não tão tardia, lá estava novamente, sentado no fundo do mesmo ônibus, o mesmo Percival, e na direção o mesmo Gilberto. Desta vez, João teve que sentar mais próximo à figura saliente, onde havia lugar. E o tal começou a falar com uma voz clara que ressoava: “Hoje tá São Paulo da garoa. Muito bom. Nem quente, nem frio.Você não acha?” Perguntou. A partir daí, entabularam uma conversa, que fez o João perder o ponto em que desceria. Percival: “Não faz mal. Daqui a pouco você vai chegar no mesmo ponto”. “Sim, mas vai ser uma baita volta”, disse o João.
     Essa expressão foi uma deixa para um discurso de Percival. Ajeitou-se, levantando um pouco nos bancos em que se espalhava, e iniciou com uma voz, soma de radialista com feirante:
     “Olha, eu, quando sento aqui, não tenho pressa de levantar. Eu me divirto nisso aqui. Dou voltas e voltas. Não tenho pressa. Eu vejo o mundo passando sentado aqui no fundo. Eu conheço o Gilberto. Conheço os outros motoristas. Nós vamos levando a vida. Eu com eles. Sabe que eu até sei dirigir ônibus. Uma vez até precisou, quando um motorista começou a passar mal e eu dirigi até o hospital. Mas eu fico no ônibus sempre à noite. É à noite que a gente vê a alma da cidade. Quando você só entra e sai do Circular, você não vê o mundo aqui dentro. Pra isso, precisa ficar aqui dentro. Dar muitas voltas. A vida dá muitas voltas. Eu venho aqui toda noite. Às vezes mais tarde, às vezes mais cedo, mas sempre de noite. É que aqui tem muito passageiro cansado, com sono, só passando. Não. Eu não passo, eu fico. Só saio antes do amanhecer. Quando a luz da rua começa a apagar, não estou mais aqui”.
     O ônibus chegou novamente no ponto de João descer. Ele despediu-se de Percival, dizendo esperar encontrá-lo outra vez. Toda aquela filosofia do passageiro permanentelhe provocou reflexões – tantas vezes Percival falou a palavra aqui – e acrescentou mais mistério ao seu mundo à parte do Circular.
     O resto do ano foi bastante atribulado em estudos e trabalho, de modo que João pegou o Circular só durante o dia. Mas, ficou cismado em reencontrar Percival. Entrou o ano de 1978 e férias de janeiro. João foi passear de Circular Avenidas tarde da noite. Entrou em um, desceu, depois em outro, e não encontrou o Percival.
Pensou sobre onde poderia ficar ou morar essa pessoa que passava as noites vagando e divagando. Lembrou da figura lendária dos mitos medievais com o mesmo nome. Ficou em dúvida se vivenciou uma lenda, ou uma ilusão, no ônibus. Em noites sucessivas, repetiu a busca. Deu voltas. Com o passar das noites – não sabemos se ele percebeu – João, ele mesmo, foi se tornando Percival.

AFONSO CARLOS NEVES
Médico Formado Pela Escola Paulista de Medicina (UNIFESP)
SEGUNDO LUGAR CATEGORIA PROSA
II INTERMED LITERÁRIA PAULISTA SOBRAMES SP


"S"


Quando criança, minha mãe e eu tínhamos um ritual antes de irmos dormir. Ela colocava minha cabeça em seu colo e sussurrava baixinho, me pedindo para não fazer barulho, pedindo para que eu escutasse o som do silêncio. Ela costumava dizer que se eu me concentrasse o suficiente daria para ignorar todos os ruídos externos e escutar apenas o som da Terra girando, o mundo se movendo, a noite aos poucos dando lugar ao dia. Ficávamos assim até eu dormir. Era nosso ritual noturno.
            Mesmo depois que ela se matou, continuei cumprindo fielmente o nosso ritual. Eu me concentrava cada vez mais para ouvir aquilo que ela chamava de som do silêncio, algo que quando criança eu nunca conseguira ouvir direito. Aos poucos comecei a entender aquilo que ela queria me mostrar.
            É realmente possível escutar a Terra girar, da mesma forma que você escuta uma bola sendo rodada no chão. Mas eu passei a escutar muito mais. Ao fundo, bem baixinho. No começo era quase imperceptível, mas com o tempo o volume foi ficando mais alto, ou talvez eu tenha aprendido com a prática a isolar os demais ruídos e só me concentrar nesse.
            Era uma espécie de zumbido. Mas um zumbido que não tinha o som de “z”. Era claramente o som de “s”. A letra s em sua forma mais pura, constantemente repetida de uma maneira que adentrava os ouvidos e lá permanecia. Um som que só eu podia ouvir. Um som que falava comigo.
            Silêncio
            No começo eu só escutava o som quando estava em silêncio, sempre antes de dormir. Mas depois ele conseguiu entrar na minha cabeça e nunca mais saiu. Os sons de s se transformaram em palavras, frases, um contínuo de sentenças o tempo todo na minha cabeça.
Sempre palavras com s.
            Silêncio Solidão Sujeira Surto Sexo Sadismo Segurar Surrar Sorriso Sentir Servidão Sofrimento Suicídio
            Parei imediatamente o ritual noturno. Eu não queria mais ouvir aquele som. Não queria mais ouvir o silêncio. Passava os dias rondando pela cidade em locais barulhentos. Metrôs, avenidas movimentadas, feiras. O silêncio era perigoso. O silêncio falava comigo. Não tinha mais como fugir. Ele estava lá para sempre agora.
            Nenhum lugar era seguro mais. Nenhum barulho era suficiente para suprimir o som do silêncio. Independente de onde eu estivesse, do que eu fizesse, mesmo quando eu gritava. Ele estava dentro da minha cabeça! Eu não conseguia parar de escutar aquele som. Comecei a obedecer todos os comandos. Como eu poderia não obedecer? Era a única forma de fazê-lo parar, de tirar aquilo de dentro de mim.
            Isolei-me de todos os poucos amigos que eu tinha. Solidão
            Deixei de tomar banho e de ter qualquer cuidado com a higiene da minha casa. Sujeira
            Antes de me trazerem para o hospital, me disseram que eu tive um episódio grave de psicose. Surto
            Uma prostituta trabalhava perto da rua onde eu morava. Perguntei se ela gostaria de ouvir o som do silêncio comigo. Ela riu, mas me seguiu até meu apartamento depois de eu ter mostrado o dinheiro. Sexo
            Amarrei seus pulsos na minha cabeceira, com muita força. Não parei quando ela me disse para parar. Sadismo
            Apertei seu pescoço por tempo demais. Segurar
            Eu não conseguia parar de bater. Ele não me deixava parar. Surrar
            Eu não parava de sorrir enquanto os policiais me levavam. Eu estava feliz por finalmente ter conseguido fazer com que ele parasse. Eu não ouvia mais o “s”, só o som da sirene da viatura, os comentários dos vizinhos, o barulho do tráfego. Sorriso
            Mas foi momentâneo.
            Ele voltou. Ele sempre volta. Está sempre comigo. Posso senti-lo como sinto cada um dos meus membros. Sentir
            Obedecê-lo é a única forma de continuar vivendo em paz. Servidão
            Não conseguirei me livrar dele até o dia em que eu acabar exatamente como a minha mãe. Uma furadeira atravessada de uma orelha a outra passando pela cabeça. Só assim ela conseguiu parar de ouvir o som do silêncio. Sofrimento
            Ela se libertou. Suicídio
            Você não pode vê-lo. Talvez nem consiga senti-lo. Mas espero que isso não te iluda, porque ele está lá, sempre estará. Zumbindo baixinho. Tentando se comunicar. Pronto para entrar na sua cabeça. Não tem como fugir do som do silêncio. Uma vez que você o escuta, jamais deixa de ouvi-lo.
            Nas madrugadas tranquilas, quando você deitar na sua cama e respirar fundo por alguns segundos, pare e se concentre no barulho do mundo girando. Com mais um pouco de esforço, se concentre no “s” bem ao fundo. Eu sei que você vai conseguir.
            O som do mais puro silêncio estará lá te esperando.
            Ou talvez seja apenas eu sussurrando a mensagem do silêncio nos seus ouvidos enquanto você está de olhos fechados tentando dormir.
            Você já consegue ouvir?
            SSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS

  
CAROLINA VILELA MARTINS TONIN
Estudante da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP)
TERCEIRO LUGAR CATEGORIA PROSA
II INTERMED LITERÁRIA PAULISTA SOBRAMES SP

VENCEDORES DA II INTERMED LITERÁRIA PAULISTA 2019 SOBRAMES SÃO PAULO


CATEGORIA POESIA:

PRIMEIRO LUGAR:
EPITÁFIO
SAMUEL DO NASCIMENTO PONCE
ESTUDANTE DA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (FMUSP)

SEGUNDO LUGAR:
RECEITA PARA UM BOM MÉDICO
RAFAEL REIS DOS SANTOS
ESTUDANTE DA FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS DA SANTA CASA DE SÃO PAULO

TERCEIRO LUGAR: EMPATE
AMAR, HÁ MAR
LUÍS FELIPE CHAGAS CALDEIRA CATÃO
ESTUDANTE DA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (FMUSP)

CAUSA PERDIDA 
ENRICO STEFANO SURIANO
ESTUDANTE DA FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS DA SANTA CASA DE SÃO PAULO

RECEITA PARA SER UM BOM MÉDICO


Se queres ser um bom médico
é preciso abandonar o jaleco.

Há uma certa paranoia entre os médicos
de achar que o jaleco precisa estar sempre
muito branco e bem passado.
Um manto asséptico que lhe vista o corpo
e que lhe proteja de qualquer contato.

Se queres ser um bom médico
é preciso ter as mãos imundas.

É preciso não ter medo de tocar
os pés mais escuros e mal-tratados.
É preciso não temer o sangue coagulado
se quiser chegar ao interior de alguém e achar aonde a morte está pulsando.
É preciso mergulhar as mãos sem pudor
nas dores e feridas mais fétidas
se pretende um dia ajudar verdadeiramente alguém.

Agora, se queres realmente ser um bom médico
é fundamental que jamais se esqueça de lavar as mãos.

Trazer ao paciente fragilizado
as sujeiras de sua própria vida
é a forma mais rápida de infectá-lo com problemas desnecessários.
Também é essencial que lave as mãos
sempre que sair das enfermarias.
Levar para casa o miasma e o sofrimento dos hospitais
é se envenenar um pouco todos os dias
e pôr em risco a própria vida.

Medicina é cuidado e vida.
E para ser um bom médico
é preciso não se esquecer disso nenhum dia.

RAFAEL REIS DOS SANTOS

Estudante da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo
SEGUNDO LUGAR CATEGORIA POESIA
II INTERMED LITERÁRIA PAULISTA SOBRAMES SP


AMAR, HÁ MAR


Esteve de volta ao nível em que fora forjada nossa sintonia.
brutal, visceral, animal.
a próxima hora de maré alta
trará todas as conchas de que sentíamos falta.
fará dessa ardência tropical um percurso molhado 
em que nossa paixão há de condensar disparatada.
as mesmas ondas que nos aproximaram
serão aquelas que conservarão:
as alianças-maresias
do nosso casamento em alto mar.
união consagrada pelas estrelas que reluziam 
no olhar que me direcionava,
tateando por curvas conhecidas
pelas mãos que me traduziam amor em afago.  
entrelaçados,
permanecíamos sobre o mesmo atlântico de que falava a poesia camoniana .
o mesmo dobrado pelos desígnios de potência humana bravia.
em nenhum palmo sequer, resquícios de pacifismo.   
dobras que me fazem de jangada na tua praia,
ao sabor amargo e incorrespondido da correnteza passional que sustenta teu álibi.
não há mares nesse sertão. coração.


LUÍS FELIPE CHAGAS
Estudante da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP)
TERCEIRO LUGAR CATEGORIA POESIA
II INTERMED LITERÁRIA PAULISTA SOBRAMES SP


CAUSA PERDIDA


O difícil não é receber um fora
Ou virar piada no grupo da sala
Ignorar o alarme e perder a hora
Nem ser o último a ter ouvida a fala

O difícil não é tirar 2 na prova
Ou cair na briga e receber um soco
Ver que seu amor tem companhia nova
Nem tocar o peito e se perceber oco

O difícil não é ser feito de trouxa
Nem ser banido, ferido ou rechaçado
Conversar com Deus e ver que a fé é frouxa
Ou desistir do sonho idealizado

O difícil não é perder um parente
Nemser dependente de antidepressivos
Sofrer preconceito ou violência latente
Ou dever pro banco todos seus ativos

O difícil não é cair na ladeira
Ralar as mãos, trincar uns ossos e
Afundar na lama até que anoiteça;
A noite é fria mas passa, e o doer
É remediável

O difícil é se erguer, bater a poeira
E engrossar a casca – só pra ver que
Não importa o quanto você endureça:
Na criatividade em fazer sofrer
A vida é implacável.

ENRICO STEFANO SURIANO
Estudante da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo
TERCEIRO LUGAR CATEGORIA POESIA
II INTERMED LITERÁRIA PAULISTA SOBRAMES SP


30/05/2019

ROSAS QUE FALAM


POEMA DEDICADO A CARTOLA

Atrás da colina, ao raiar da alvorada,
erguia-se um vasto e formoso jardim.
Eu era criança em curiosa jornada
e as rosas contavam segredos pra mim.

Que a vida é ciranda e este mundo, um moinho,
girando entre o acaso e o implacável porquê.
Depressa eu cresci... Procurei outro ninho,
tentando encontrar nem eu sei mais o quê.

Talvez o desejo de ver bem feliz,
em outros locais, natureza sorrindo.
Talvez tentação... Como um mero aprendiz
sem hora ou demora, eu sorri... E fui indo.

Aos poucos, porém, muitas cordas de aço
mudaram meu passo, abalaram a calma.
O peito vazio... E em vez de um abraço,
sorriso chorado invadiu minha alma.

Então eu regresso e vislumbro a colina,
a mesma que tanto encantou minha infância.
Um sonho, esquecido, tenaz, me fascina,
disperso no tempo e na longa distância.

Voltando ao jardim, eu me sinto criança
e as rosas me falam do amor que há na prece.
O Sol a nascer tinge o céu de esperança.
Milagre da vida que ainda acontece.

MÁRCIA ETELLI COELHO
VENCEDORA DO PRÊMIO
BERNARDO DE OLIVEIRA MARTINS 2018

DOCEMENTE AZEDO



Docemente Azedo

Vou fechar janelas.

Para que os ventos noturnos.
Não tragam lembranças de outras terras...nem seus sons.
Não quero o azedo do limão que se descascou em Dublin.
Nem a silhueta da cortina com o desenho do Kilimanjaro.
Quero o calor do Pacoval.
Trazendo suor e sal.
Grudando as axilas.
Secando o cuspe da boca.
Enquanto em mim brotam dissonantes notas afônicas. ...
E a mim dizem que morreu o silêncio!
Aquele mesmo silêncio que eu pensei
ter colocado entre o desenho pautado de um Fado,
e a encabulada ritmicidade de um Tango.

Desenhos rostos que se parecem tanto com rostos,
que se não se parecem tanto entre si mesmos.

Vou cerrar as janelas
Vou esfregar as pálpebras de encontro as lágrimas,
e amordaçá-las com soluços.
Quiçá barulho de vidro quebrando...
deveras estalos de fraturas de ossos ... acontecendo...
Estes sons da noite me acordam...
quando demoro...silenciam...
 atiçando a ansiosidade de ouvi-los novamente.
Quando me enamoro da vida...
Mastigo sombras que entram pelo vão,
entre os sons e os silêncios.
Têm gosto de limão.
Exatamente... o mesmo gosto que guardo em mim.
Quando no quintal o galo atônito e rouco...
desperta de súbito.
Firme com a lua presa no bico.
E finge estar surpreso com a Aurora.
Finge estar surpreso, com o que lhe cerca.
Vira-se pelo avesso
O sol lhe colore as entranhas.
Suas lembranças saem aos borbotões, como borboletas negras.
Diria que em Outubro voltarão libélulas.
Pode ser que em Morse.Cantem a Aurora.
Tragam Canções Americanas do Norte.
As que falam das Águias.
As que incluem corações indígenas,
pintados nas montanhas...

As que grafitando o metrô em Amsterdã...
acordem o Sol.
Ou as que simplesmente perduram afônicas em Macapá...
Porque tudo que é longe, é tão próximo.
Tudo que foi Ontem, será agora!
Como meus olhos,
e teu olhar longínquo
desenhado na areia da poça d'água estreita, e rasa...
em qualquer rua
após uma chuva das duas em Belém do Pará.
Avesso e não avesso.
Apagado e aceso.
Estridente e rouco. Destro e direito.
 Docemente... Inutilmente ...
Com as mãos no bolso onde guardo uma lua Minguante.
Assovio melodias apaixonadas por silêncios!
No avesso dos silêncios, não sou sons... sou ímpar.

LUIZ JORGE FERREIRA
PRIMEIRA MENÇÃO HONROSA
PRÊMIO BERNARDO DE OLIVEIRA MARTINS 2018

VENEZA, A VIAGEM


De que é feita a viagem
Nos canais do pensamento,
Memórias entre muralhas,
Camafeus entre medalhas,
Palácios de sentimentos?
Deslizam, na superfície,
Apelos de algum momento
Embalados na cantiga
Da nostalgia bem-vinda
De antigos sentimentos.
No fosso da eternidade,
Sob a Ponte dos Suspiros,
A gôndola corta a tarde
Na mansidão da paisagem,
Sem adeus definitivo.
Veneza de doce saudade
Nas ruelas do destino
Inscrevi, um pouco tarde,
Quase na maturidade
As linhas de um desatino.
Até um dia! Quem sabe
Na voz de um gondoleiro
Antes da grande viagem
Eu não tenha só miragens,
Mas um cais... E um paradeiro.

JOSYANNE RITA DE ARRUDA FRANCO
SEGUNDA MENÇÃO HONROSA
PRÊMIO BERNARDO DE OLIVEIRA MARTINS 2018


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