Sentado na calçada observa o poste de luz ao seu lado, imponente, impávido rumo ao céu, indiferente de quem o olha. Continua sentado e cada vez que olha o poste contra o azul do céu sente o mundo rodar dentro da cabeça. Continua sentado no chão da calçada esperando que o mundo pare de rodar, já aconteceu antes, é só esperar.
Já é noite quando consegue levantar abraçando o poste, que continua sem tomar conhecimento de sua existência; esboça os primeiros passos e segue, tentando ser o mais normal possível. A dor de cabeça vem, mas ele, bravo guerreiro, continua. Se ao poste nada faz diferença para ele também. Nisto são iguais, não interessa quem está ao lado, o importante é tentar chegar ao infinito.
Entra em casa, solitário, com a poeira da rua impregnando suas calças, suas mãos, se deixa cair na poltrona. Mais um pouco e tudo será como antes. Olha em volta. O poste ficou lá trás olhando para o céu da noite. Não sabia se havia estrelas, não as olhou com medo de conspirarem contra seu frágil equilíbrio, mas se comportaria como o poste: que diferença fariam as estrelas?
Levantou-se e parou em frente ao espelho que sempre o acusava. Desta vez viu-se como era e não como imaginava ser. Olhos fundos, entristecidos, sombreados; os dentes sujos e amarelos o envelheciam com a rapidez do tempo inexorável.
O tempo era como o poste, existia e nada podia fazer para modificá-los, movê-los, tirá-los de cima de seus ombros. E ali na sua frente o espelho continuava a ameaçá-lo.
Ficou assustado com a imagem refletida, virou-se de lado, mas do canto do olho continuava a ver-se acabado, cansado, querendo entregar os pontos. Não haveria metamorfose capaz de transmutá-lo em outro ser, novo, forte, apaixonado pela vida.
Não havia mais nada que pudesse ser feito, e a culpa era de quem estava dentro do espelho olhando, rindo, fazendo pouco dele. De que adiantava ter nascido estourando por si mesmo a casca do ovo e entrando numa empreitada avassaladora chamada vida. Cumpriu todos os pré-requisitos necessários para ganhar o grande prêmio.
Cresceu, aprendeu a andar, ler, escrever. Superou desafios inconcebíveis, metas impostas por ele para ele mesmo. Chegou aonde poucos conseguem chegar com trabalho, esforço, dedicação. Subiu ao pódio da vitória. E aprendeu a amar. Amar desesperadamente a ponto de se doar por inteiro a um sentimento incontrolável.
Viu-se dependente das paixões humanas, da desilusão, vítima de si próprio. Não suportou o espelho, voltou à rua, sentou-se ao lado do poste, que continuava impávido e silencioso. Ali era melhor. Do alto do pódio via lá embaixo pessoas felizes, sem a responsabilidade do primeiro lugar, amando despretenciosamente.
Entre o poste e o espelho abriu outra garrafa, saboreou, sorveu, bebeu até que as estrelas começassem a rodar no alto. Não fazia mais diferença a altura do poste. Ali estavam elas bailando melhor a cada gole. Não se preocuparia mais, o poste se tornara seu amigo que servia de apoio para as costas sem reclamar.
Não queria mais nada, o primeiro lugar na corrida da vida o levara a percorrer caminhos estranhos e sofridos, sem volta.
Olhou para a frente em direção ao seu destino sem perspectiva de mudanças. Aninhou-se junto ao poste, agora seu confidente, antes de tentar enfrentar novamente seu próprio eu.
Que droga de vida, meu Deus...
Roberto Antônio Aniche
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