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13/04/2016

ESCRITORES E PERSONAGENS


Os personagens esperam o seu autor.

Dormem nos espaços virtuais de nossas mentes.
São visualizações ainda mal definidas que nos acompanham um longo período
sem  nos darmos conta.
Em certos momentos nos provocam, parecem abrir levemente os olhos, e os vislumbramos.
Atraem nossa atenção como fagulhas em instantes evanescentes;
Espreguiçam e nos tocam; brotam de uma fonte em nossa essência.
Convivemos intensamente; conversando, discutindo até brigando e num momento de paz os colocamos no papel para compartilharmos com os amigos!
Assim como  fazemos com nossos amores.
Transformam nossa existência.
Um dia os publicamos!


SUZANA GRUNSPUN

05/04/2015

JERUSALÉM

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Estando próximos de Jerusalém muitos sentimentos vieram à tona. Cidade dourada, de pedra arenito. Eu mergulhada em sentimentos transformadores.
Estimulada pelo impacto de chegar, pressenti algo; de súbito nosso percurso mudou. Na cidade antiga ocorrera um motim, estava apedrejada. Região de lutas e discórdias; por séculos cobiçada em sonhos, a terra prometida mantém sua roupagem.
Diante do ocorrido fomos para o museu e aprendemos numa charmosa maquete como era a cidade nos seus primórdios. Ouvimos e visualizamos sobre a controvertida destruição do templo. Confesso que foi uma lição difícil de assimilar mesmo diante de explicações científicas, arqueológicas e religiosas. Como o emocional pode interferir na assimilação de conhecimento...
Finalmente o conflito acalmou e pudemos exaustivamente percorrer Jerusalém, desde o muro das lamentações e alcançar a pedra do templo, a mesquita, monte das oliveiras, passando pela Via Dolorosa até o local do crucifixo.
Ficamos instalados na parte moderna da cidade, que nos surpreendeu por sua elegância e equilíbrio estético, finamente planejado. Cidade perolada, clara e limpa.
Uma Jerusalém moderna, elegante funcional, por escadas e shoppings ela nos abre suas antiguidades, pensei: como absorver e assimilar tudo isso? História, séculos sobrepostos concretamente em pedras enigmáticas, cidade que transborda emoções.

SUZANA GRUNSPUN

09/11/2014

A BLUSA ROMENA


Encontrei escritos meu de 1972,letra em caneta tinteiro preta, rascunho  em um envelope pequenino do Musée National D’ art Moderne em Paris:

Estou na sala Matisse é incrível ver a evolução do pintor Matisse caminhando para o modernismo, traços mais duros; impressionismo,tentativas de simplificação. Figuras, traços modernos, me dá a impressão de expressionismo, arte moderna: apogeu La  Blouse Roumaine

Com olhar de moça ainda menina encontrei a Blusa Romena. Diante do quadro senti que trocamos olhares; meigo, feminino, firme. Quando dei por mim estávamos experimentando aquela mesma blusa  e conhecíamos a textura ,o toque dos bordados .

Naquele momento, alucinante da troca de roupa, me vi e me desconheci. Na profundeza do vermelho, emergi e me acalmei do branco ao azul.

Eu ainda mais nova e nós tão  próximas.

De perto parecidas; eu ainda menina me diferenciava dela  uma mulher jovem...

Usei na infância tal seda, enfeitada e delicada. Comemorada pela minha mãe, naquela sua alegria de me reconhecer como uma igual aos seus; vindos de tão longe.

Romênia.

Agora  para lá do ano 2000 , sentada, lembrando  com emoção.

SUZANA GRUNSPUN

20/06/2014

BASTIDORES



Como nos sonhos, podia andar naquele vasto corredor largo. Cada porta guardava uma história; ela sabia. Ao abri-las os personagens se iluminariam e subindo no palco iriam representar suas vidas. Perguntava-se: cada porta poderia ser  acionada inúmeras vezes?

Iniciar essa visita seria um trajeto instigante; levada pela curiosidade, sentia-se estimulada ao abrir uma a uma, cada porta, e se entregar de corpo e alma a cada visita. Não era muito claro o procedimento dos personagens se instalarem lá dentro. Realmente havia uma grande porta central, no fundo, com certeza era por lá onde tudo começava.

Outra inquietação; como esses personagens eram aceitos? Qual seriam as condições; talvez sofrimentos, alegrias, ou até mesmo algum particular problema que teria influenciado suas vidas e até mudado o curso natural delas.

Apesar de certo receio poder impedir sua investigação, esse era logo dissipado. Além do forte interesse, alguma coisa a movia; ao mesmo tempo ela participava de uma modo diferente  de quem  só assistisse a um espetáculo. A sensação de sonhar se criava e se evanescia. 

Por detrás de tudo isso  havia uma tradição que alimentava  seu desassossego a ponto de vencer os medos. O que havia de tão interessante? Uma atividade humana tão antiga e recente, simultaneamente, quase um paradoxo.

            Perdia-se em reflexões de  como alguém poderia escolher tal  ocupação. Providenciar para aqueles personagens adentrarem as portas mediante um conhecimento prévio de suas histórias e depois se dedicar a cada um especificamente.

Quantas promessas de quem  vem se ocupando de tal tarefa! Seriam essas suficientes para a incitar  prosseguir e enfrentar todos os seus receios?

Comprometer-se com essa atividade seria uma experiência única, humana, gratificante e consagrada. Assim plantou a semente da coragem  prosseguir  jornadas novas quando  abrisse cada  porta.

Dividiria seu tempo compartilhando cada vida que os personagens reviveriam. Poderiam até renascer no encontro humano e verdadeiro que se daria ao iluminar o palco acionado pelo toque de cada maçaneta. Estavam batizadas a da mitologia, a dos contos de fadas, a das alegorias. Do tempo, dos bebês; da inconstância, eram consagradas; mas a porta denominada outrora, por ser considerada um tabu, era muito interessante.

 Algumas passariam despercebidas, se não fossem a insistência de seus habitantes que faziam questão de marcar sua presença, nem que fosse por causa de um pequeno grito ou barulhinho mínimo. Outras, anônimas, ainda esperavam seus personagens adentrarem.

            O que era inusitado? As histórias só seriam entrelaçadas se ela soubesse tecer um fio que desse um sentido particular a todas. Isso dependeria de suas capacidades pessoais e também de seu interesse em cada personagem. Haveria um amadurecimento e preparos a serem providenciados. Como se daria tudo isso?

Conhecer alguns segredos desse caminho seria interessante. Nossa! Isso seria imprescindível! Teria algo a mais que só seria adquirido na própria prática. Tudo isso era muito intrigante. Será que conseguiria enfrentar todos os medos?

Nas profundezas de cada personagem, haveria uma aprendizagem. Essas histórias já teriam sido vividas e permaneciam fechadas ou até trancadas; só voltando à ação, como se dizia , quando os enredos fossem retomados. Cada imagem voltaria novamente toda vez que se reabrisse a porta? Seria uma questão de memória? Ou estaríamos simplesmente diante da vida?

            No âmbito da memória estaria ela e os seus personagens somente relembrando; ou o diferencial dessa atividade é vê-los brilhar no palco  onde a vida se reconstrói em seu mais alto quesito do desenvolvimento humano.

 
SUZANA GRUNSPUN

10/12/2013

TIM TIM

Que susto! Final de ano, e a seta do  tempo me alcançou na curva da vida!
Que susto! O ciclo das estações nos  pregam uma peça.

Cuidado, as marcas de Cronos são implacáveis!

Não quer saber se estamos com pressa ou se andamos vagarosamente.

Ri de quem perde tempo, será que se regozija de quem aproveita?

Nos prega uma peça bem dada!

Tim Tim
SUZANA GRUNSPUN

20/04/2012

CONTINUIDADE

Durante a Pizza Literária de 19 de maio de 2012, a médica psiquiatra Suzana Grunspun oficializou seu ingresso na SOBRAMES SP como membro titular.
Segue um de seus textos denominado Continuidade.

I –Bagagens
Os tempos mudam no devagar depressa dos tempos . Os pés molhados , a cabeça atordoada.Meus pensamentos corriam , eram um só, eu atrás de segurar o tempo.Diante do imponderável tentava dominar o temporal com a fraca proteção de um guarda chuva que parecia encolher.
Alguém me disse : sai , procura um abrigo para todas as coisas;permaneci com as bagagens da vida.Como todo um passado poderia caber num presente tão indefinido, tênue e escorregadio.
Eu agora filha , órfã e aflita para não perder o passado. Esse me dando a sensação de uma existência única no tempo e no mundo.
Na correria,encontrei um lugar no presente.Guardei todos os compromissos de meu pai; seus arquivos , sua memória , nem viva ,nem morta.Me aliviei nesse espaço; não era meu, não era dele. Dei continuidade.

II-Pai
A sensação de alívio, sabendo de sua continuidade , foi uma experiência propulsora em minha vida.Volto-me para você mais tranquila e escrever esta carta é uma forma de conseguirmos nos tocar; sinto uma alegria na oportunidade que se revela.
Deparo-me com a rapidez como as frases aparecem;espero não pesá-las, será menos dolorosa a sensação da saudades que me toma o espírito.Com serenidade a fluidez prevalecerá; no papel em branco ficará marcado toda a nossa amizade e mútua admiração.
Fui dançar , escrever , rever pinturas nos museus para modular a dureza da vida que muitas vezes nos assola e enrijecem as lembranças.O mais engraçado foi entrar nessa intensa atividade e procura;percebendo o quanto de mim ainda se alimente de nós.
Aquelas discussões inflamadas , doídas não turvaram nossa comunicação.Passaram à tonalidades claras e amenas na minha mente. Os dissabores trocaram de gosto , se amargo algumas vezes, agora temperam a minha existência.
Eu gostaria de rever todos os nossos bons momentos , até sobrevoar a paisagem de nossa história, para sentir novamente o contínuo diálogo mantido nos longos anos, por algumas vezes calorosos , coloridos; outros beligerantes, opacos.
Nesta experiência de presença , ausência ; peculiar de quem se vale de recordações, percebo poder escolher entre estes momentos.
Quem diria , alcançarmos uma transcendência; eu transformo e resumo toda a nossa vida em pequenos instantes passageiros que permanecem eternos .

Suzana Grunspun

Baseado no conto : A terceira Margem do Rio de João Guimarães Rosa
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